Contos de uma Brasileira Fora do Brasil

Hollis7 de agosto de 2026politics

Isto não é um manifesto político, um relatório de inteligência nem convite formal de coisa nenhuma. Se você chegou até aqui, provavelmente estava rolando os artigos procurando qualquer coisa que justificasse ter aberto o jogo hoje. Meus pêsames.

Sou a Hollis, atual Vice-Presidente de Angola. Coloco o título logo aqui em cima porque, pelo que percebi, é assim que se estabelece autoridade neste servidor: todo artigo termina com três linhas de cargo em itálico, como se o texto ficasse mais verdadeiro por isso. Já tirei do caminho, me coloco como apenas mais uma. O cargo, aliás, não me isenta de absolutamente nada. Continuo abrindo o jogo todo dia pra alimentar meu personagem, mandar ele trabalhar e bater, exatamente igual a qualquer um. A única diferença é que agora, além de fazer tudo isso, eu ainda recebo mensagem de gente reclamando de coisas que não são culpa minha.

Existe uma lista de missões diárias: tarefas simples, curtas, projetadas para serem concluídas em minutos. Boa parte da população deste servidor desiste no meio. Não por dificuldade. Por tédio mesmo. É uma obra-prima de design conseguir tornar entediante a atividade de receber recompensa de graça.

O que salva o War Era, e todo mundo sabe disso mesmo sem admitir, é o chat. É ali que o jogo realmente acontece. Fofoca, treta, aliança costurada em três mensagens, gente discutindo economia às duas da manhã com a mesma paixão de quem administra um país de verdade. Tira o chat e sobra um simulador de barrinha enchendo.


I. O Problema de Jogar Com o Chat Vazio

Aqui está a parte que ninguém fala em voz alta: o chat só salva o jogo se alguém falar com você.

Se você joga sem grupo, sua experiência no War Era é a versão sem o remédio. Você entra, cumpre a rotina de manutenção do personagem, abre a aba de batalha, bate o dano que alguém decidiu por você e rola a lista até achar seu nome na posição 400 e alguma coisa. Alívio: pelo menos não foi o último.

Ninguém te explicou por que aquele alvo. Ninguém perguntou o que você achava. Ninguém percebeu que você está travado no mesmo level há três semanas. Você vê as conversas rolando, as tretas acontecendo, os acordos sendo fechados, e assiste a tudo pela janela como quem passa na frente de um bar cheio sozinho.

E aí vem aquela pergunta desconfortável, geralmente por volta da segunda semana: pra quê, exatamente?

Eu passei por isso. Cheguei perto de fechar o jogo e não abrir mais, daquele jeito silencioso que ninguém percebe. O que me segurou foi a MÁFIA me achar antes disso acontecer, ainda no Brasil, quando eles próprios estavam apanhando de todos os lados.


II. O Grande Exílio Passivo-Agressivo

Voltando um pouco no tempo: há quatro meses a MÁFIA chegou ao War Era como um grupo unido, vindo de outra comunidade, cheio daquele otimismo constrangedor de quem acha que vai somar com a comunidade brasileira. Naquela altura eu nem sabia que eles existiam, ocupada demais em manter meu personagem alimentado e minhas barrinhas cheias.

A recepção foi calorosa no sentido de que foram tratados como uma infestação.

E aqui vale abrir um parêntese, porque essa parte merece um momento de silêncio respeitoso: o motivo da perseguição não tinha nada a ver com o War Era. Nada. Zero. A treta veio importada de outro jogo, de outra comunidade, de brigas que aconteceram em servidores que a maioria das pessoas envolvidas nem frequenta mais.

Pense no nível de compromisso emocional necessário pra isso. Alguém abriu um jogo novo, viu um grupo desconhecido chegando disposto a somar, cruzou referências mentais, identificou nomes de uma rixa antiga e concluiu que a prioridade número um da política brasileira no War Era era resolver pendência de outro lugar.

Nenhum cálculo de força, nenhuma análise de dano, nenhuma preocupação com o Estado. Rancor puro com passaporte, atravessando fronteira de jogo pra continuar funcionando por aqui.

O resultado foi discriminação aberta, retaliação sistemática e um cerco diário que tornou insustentável qualquer tentativa de existir em paz naquele país.

Foi nesse período que eu entrei na MÁFIA. Peguei o pior momento possível, entrando num grupo que apanhava por motivo que não existia, o que em retrospecto explica muita coisa sobre as minhas escolhas.


III. A Parte Onde Nós Ganhamos

Aqui entra a única coisa realmente útil que eu fiz em toda a minha carreira no War Era.

Conversando com quem aparecia pelo caminho, acabei conhecendo jogadores angolanos. Gente que, veja só, tratava desconhecido como pessoa sem exigir três cartas de recomendação e um exame de sangue político. Angola tinha território, gente disposta e um problema bem definido: seis regiões sob domínio da República Democrática do Congo.

Do lado de cá existia um grupo organizado, com disciplina militar, cansado até a medula de brigar todo santo dia por causa de rancor importado.

Eu apresentei um lado ao outro. Minha grande contribuição estratégica na época consistiu em abrir uma conversa que ninguém tinha aberto ainda.

Quando ficou claro que existia um lugar onde a MÁFIA seria tratada como aliada, a decisão veio rápido. Chamam de exílio quem é obrigado a sair, e obrigação vem em formas variadas: a nossa foi um cerco que tornou impossível construir qualquer coisa ali. A diferença é que escolhemos o destino, e escolhemos com quem ir.

Gastar energia erguendo Angola rendia infinitamente mais que gastar energia se defendendo de gente que nunca ia parar.

Deu certo além do razoável. Lado a lado com os jogadores de Angola, tomamos de volta as 6 regiões que estavam sob domínio congolês. Todas as seis. Não uma, não três: as seis.

Hoje a MÁFIA e Angola operam como um só povo, ombro a ombro, sob a mesma bandeira. E, francamente, é a melhor coisa que já me aconteceu neste hospício.


IV. Aviso Necessário Antes que Alguém Surte

Não somos inimigos do Brasil. Nunca fomos.

Nossa treta sempre foi com um grupo específico que confunde cargo com propriedade privada. O jogador brasileiro comum nunca teve culpa disso, e boa parte de quem está aqui é brasileira até hoje.

Você não precisa escolher entre gostar do seu país e ter um lugar onde alguém responde suas perguntas.


V. Sobre Ter um Objetivo, Coisa Rara Por Aqui

A parte mais dura de jogar sozinho é evoluir a conta e não ter resposta pra "evoluir pra quê".

Aqui a resposta existe, e é razoavelmente ambiciosa: desenvolvimento econômico, militar e territorial de Angola. Isso significa cadeiras de ministério, vagas no Congresso, alianças, operações semanais e um Estado inteiro que precisa ser administrado por gente que aparece.

O que mudou pra mim foi parar de evoluir sem objetivo. Cada coisa que eu faço agora tem consequência em algum lugar, e alguém do outro lado percebe quando acontece. Meu progresso aparece pra mais gente além de mim, o que soa bobo até você passar meses sendo a única pessoa que sabe que você existe.

E teve a parte prática, que eu subestimei na época. Eu jogava fazendo tudo errado e não sabia. Configuração de conta, ordem de prioridade pra subir level, como aumentar lucro diário, como não desperdiçar energia em batalha perdida. Isso tudo alguém me explicou sentado do meu lado, em texto normal, sem aquele ar de sacerdote guardando segredo de guilda. Meu dano hoje comparado com o de quatro meses atrás é constrangedor de ver.


VI. Epílogo

Reli o primeiro parágrafo. Eu escrevi lá que isto não era convite formal de coisa nenhuma, e mantenho: nada aqui tem carimbo, protocolo ou assinatura de três autoridades em itálico. Continua sendo o relato de uma pessoa contando como foi o ano dela.

Se, por acaso, alguém ler esse relato e concluir por conta própria que quer participar disso, a responsabilidade é inteiramente sua. Eu só narrei os fatos.

Talvez você jogue há meses sem saber se está fazendo certo. Talvez tenha opinião e nunca teve onde usar. Talvez esteja a dois dias de sumir de vez e tenha decidido dar uma última chance.

Eu não vou prometer que as missões diárias vão ficar interessantes. Não vão. Mas o chat continua sendo a melhor parte deste jogo, e o nosso está cheio: gente explicando as coisas, discutindo estratégia, perguntando onde alguém se meteu quando some por dois dias.

Fica o relato. Quem quiser puxar assunto sabe onde me achar. Respondo geralmente entre um ataque e outro.

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