On Demon Wings do Bohren tocava baixo em algum lugar atrás do balcão, slow enough para que eu percebesse o gelo batendo contra o vidro entre uma nota e outra. Girei o copo enquanto tentava entender como uns meses conseguiram parecer tanto tempo. Meu mandato tinha poucos dias, mas o cansaço já vinha de antes, dos meses trabalhando nas sombras, do período como vice, das guerras, acordos e noites demais olhando para o mesmo mapa tentando descobrir de onde viria o próximo problema. First term, champs, e eu já estava com cara de quem precisava de férias da política internacional.

Ainda assim, foram bons meses. A Espanha tentou nos tirar do caminho, a Venezuela veio pelo Senegal e, entre uma guerra e outra, conseguimos nos estabelecer, produzir nossos recursos e ganhar alguns trocados. Nothing fancy, mas funcionava. Nunca fomos grandes, muito menos ricos. Éramos os anões, como gostavam de nos lembrar, embora fossem gigantes curiosamente busy com a nossa existência. Aquele pequeno país insistia em exigir tempo, dinheiro, soldados e mudanças de planos de gente que teoricamente não deveria precisar se preocupar com ele. Era uma relação engraçada: quanto menores diziam que éramos, mais trabalho parecia dar para provar.
No fim, o tabuleiro mudou. Entre a adaptação ao novo e o caos de updates que mudaram o panorama do jogo, a Venezuela voltava pelo Senegal enquanto o Brasil já havia atravessado a Libéria e chegado até nossa capital pelo leste. Dessa vez não havia muito para onde correr e Bissau caiu. Faz parte do business, eu suponho; até a melhor pedra no sapato eventualmente encontra alguém disposto a parar, tirar a bota e resolver o problema.

Enquanto isso, desde o início do mês eu vinha cultivando uma amizade improvável. O presidente brasileiro https://app.warera.io/user/6a13f0490804c9936324204f é um great guy, também ocupado apagando os próprios incêndios, e depois de inúmeros dias em conversas que variavam do amanhecer à madrugada e quase sempre acabavam nos ossos do ofício, conseguimos chegar num acordo simples: eles liberariam nosso território e nenhum dos lados abriria novas frentes até o fim do mês. Não era world peace e nem precisava ser. Depois de tudo que tinha acontecido, se aquilo fosse apenas o primeiro tijolo já estava good enough para mim.
Pela primeira vez em muito tempo havia alguma coisa concreta sobre a mesa. Eu havia aceitado, o presidente brasileiro também, e confesso que por alguns instantes realmente acreditei que aquilo fosse acontecer. Então veio a resposta do Congresso brasileiro: não. Foi estranho ver dias de conversa, uma capital ocupada e talvez a primeira oportunidade real de começar a reconstruir aquela relação terminarem numa votação. O acordo havia sobrevivido a nós dois, mas não ao plenário brasileiro. Fiquei olhando para a resposta por algum tempo, girei o copo e aceitei. That's life, champs. Paciência.

Foi então que apareceu o Ministro da Economia https://app.warera.io/user/69ca915427a9163979e69d34. O presidente havia falado comigo sobre paz; o ministro queria falar sobre prejuízo e, segundo ele, Bissau deveria pagar reparações ao Brasil. Li a mensagem algumas vezes e deixei o copo de lado. Perder a guerra fazia parte do game, não tinha problema nenhum em admitir isso, mas ser ocupado e ainda receber a conta era um business model que eu não estava preparado para financiar. Não respondi naquele momento. Algumas mensagens merecem reflexão; outras só ficam melhores quando você espera todo mundo dormir.
De madrugada, quando imaginei que boa parte do governo brasileiro estivesse offline, abri uma revolução que sabia que não recuperaria Bissau. Não havia master plan, carta escondida na manga ou milagre chegando no último minuto. Havia algum dinheiro no tesouro, um certo dissabor e uma escolha bastante simples: se aquelas moedas tinham mesmo que sair do caixa, eu preferia vê-las queimando numa batalha contra o Brasil a entregá-las como reparação pela experiência de ter sido invadido.
Assim que o primeiro round começou, respondi ao ministro:
“Vocês declararam guerra na gente, vocês estão ocupando nossa casa, não faz sentido pagarmos nada pra vocês. O acordo era o proposto, infelizmente o povo não quis, paciência. Sobre o prejuízo, o acordo faria ele parar de crescer pelo menos. Não me importo de gastar o dinheiro do país pra dar prejuízo em vocês também, não tenho nada melhor pra fazer mesmo.”
Talvez tenha sido a declaração mais sincera do meu curto mandato. Conseguimos ganhar aquele primeiro round antes que acordassem e, por alguns minutos, o plano funcionou better than expected. Depois acordaram, claro, e o resto seguiu a ordem natural das coisas: perdemos a revolução, não recuperamos a capital e gastamos dinheiro numa batalha que sabíamos que não poderíamos vencer, mas eles gastaram também. No grande scheme of things não mudou absolutamente nada, mas valeu o susto.

Tomei outro gole e pensei que talvez aqueles meses terminassem de uma forma apropriada. No fim eles venceram, fair enough, e eu, que passei meses ajudando a construir Guiné-Bissau, consegui assumir a presidência bem a tempo de perdê-la. Não era exatamente o career move que eu tinha planejado, mas depois daqueles meses aprendi que planejamento e realidade mantinham uma relação bastante casual por aquelas bandas.
O gelo já estava quase todo derretido quando o homem atrás do balcão perguntou se eu queria outra. Amanhã eu teria que pensar no next move, mas talvez não houvesse tanto assim para pensar. Bissau tinha caído e isso eu não podia mudar; restava aceitar, juntar o que sobrou, levantar novamente e se prepara pra grudar no sapato outra vez.
Empurrei o copo na direção dele.
— Outra.
