Fichário do Ódio e Fracasso – Edição #2: A Geopolítica do CAPS LOCK (E o Efeito Borboleta)

Harry_DuBois31 de julho de 2026entertainment


Isto não é uma sequência, uma continuação planejada, ou prova de que aprendi algo com os erros do primeiro capítulo. É, na melhor das hipóteses, uma recaída. Pelo visto, alguns de vocês leram o registro do meu primeiro mês neste hospício e, ao invés de sentirem o pudor cívico esperado, pediram mais. Não sei o que isso diz sobre o meu texto, mas diz muito sobre o padrão de entretenimento disponível por aqui. Então prepare o suquinho e se acomode, pois os portões do CAPS foram abertos (e tem mucho texto).

Na crônica anterior, classifiquei o golpe do "faxineiro" como uma mosca batendo no vidro, um incômodo passageiro, sem peso histórico, resolvido com um pano e um pouco de paciência. Talvez não fosse mosca, mas borboleta. E aquele bater de asas aparentemente inofensivo, em algum lugar do Atlântico, virou furacão do outro lado, com direito a manifesto em Caps Lock, declaração de guerra, pacto ibérico e um vice-presidente respondendo tratados internacionais com duas palavras sem acento. O efeito borboleta, dizem os cientistas, é sobre como pequenas causas geram consequências desproporcionais. Os cientistas nunca administraram um comitê partidário dentro de um jogo de navegador, mas se administrassem, teriam material de sobra.

Apesar de fabricar munições, torço para que a paz prevaleça. Reconheço a ironia. Ninguém em sã consciência coloca um fabricante de chumbo no comitê de reconciliação, e ainda assim aqui estou eu, produzindo o material da guerra enquanto assino, mentalmente, cada petição de cessar-fogo que passa pelo meu campo de visão. Se alguém perguntar de que lado eu estou, a resposta sincera é: do lado que não precisa clicar em mais nada hoje. Apenas quero aproveitar esse final de sexta desvanecendo no meu próprio subconsciente. Mas voltemos ao começo de tudo isso, a cerca de 2 semanas atrás.

I. A Gafe do Correspondente Amador


Existem momentos na história em que o silêncio de um homem é confundido com genialidade. No meu caso, foi só incompetência mesmo. Minutos depois de eu publicar a minha primeira crônica, onde resumi o expurgo do nosso comitê como o capricho de um faxineiro zeloso demais, resolvi, enfim, dar uma passada pelo feed de notícias do jogo.

Enquanto eu calculava se valia mais a pena upar minha segunda empresa de aço ou arriscar uma de concreto, mastigando meu segundo (e último) pão do dia e dissociando com uma intensidade quase espiritual, o Presidente da República (@68b0e3029cbad7447ba92d24) já tinha ativado a Linha Vermelha.

Com o cérebro ainda processando o café frio, descobri que o sujeito que votou em si mesmo no nosso partido não era um desocupado qualquer atrás de um crachá. Três horas antes de eu abrir a boca para falar de "faxina", o palácio já tinha emitido um manifesto apocalíptico, chamando o intruso de agente infiltrado de uma "seita degenerada de pilantras contumazes" operando direto da Costa Africana. Eu havia tratado o estopim da Guerra Mundial Lusófona com o desdém de quem lê manual de liquidificador.

II. O Grande Cisma Lusófono: Brasil x Seita Degenerada


A inteligência (ou quase isso) de Estado ligou os pontos rápido. O suposto culpado pelo desmonte do nosso comitê atende pela sigla RED. Levei um tempo pra descobrir que não era um bando de forasteiros exóticos. Eram brasileiros também, só que exilados. Depois de umas tretas antigas (anteriores à minha chegada, então recuso qualquer culpa aqui), o grupo simplesmente pegou as malas e atravessou o oceano até fundar o próprio território na Costa Africana: o https://app.warera.io/party/6a29579fca14fa39cd599dc1, hoje governando Guiné-Bissau com mão de ferro e, supostamente, com o hobby de desmontar partidos brasileiros à distância. Eu não sei o que a sigla significa por completo, mas o "D", pra mim, virou "degenerados" (ok, é uma clara homenagem ao filme dos aposentados armados, só que aqui ninguém tem juízo).

Tudo começou do outro lado do oceano, onde a ofensiva veio com a maturidade diplomática de um idoso confuso, ou de um adolescente que não sabe desligar o Caps Lock: um manifesto inteiramente GRITADO, intitulado "O BRASIL E SUAS MENTIRAS". Assinado por um sujeito cujo grupo de amigos, pelo visto, o apelida de "pendrive" (o que já diz bastante sobre a estatura do adversário que estávamos prestes a enfrentar).

A resposta veio em seguida, do próprio topo. Segundo o veredito oficial do palácio, o RED é uma espécie de maçonaria clandestina de golpistas virtuais, responsável não só pelo nosso desmonte, mas também por um suposto ataque anterior ao https://app.warera.io/party/698d11a9378db6e98c4b83e2. O Presidente não usou meias palavras: acusou-os de infiltração, calúnia e (não sei bem como isso chegou na lista) calotes no Mercado Livre. Uma salada de acusações que faria qualquer psiquiatra pedir afastamento médico. Mexer na burocracia do nosso comitê foi tratado como ataque direto à soberania nacional. A resposta do Estado? Declaração formal de guerra contra a Guiné-Bissau.

A liderança da tal seita, do outro lado, afirmava ser apenas um grupo de refugiados políticos tentando viver em paz na África, longe da perseguição brasileira. "Pacífico" é uma palavra forte pra descrever quem administra um país em guerra perpétua, fazendo o front mais ocidental parecer festa de criança catarrenta. Mas tudo bem, vamos deixar quieto (o nome do jogo é WAR era).

O nível do debate institucional estava tão caloroso que, no meio da embaixada, enquanto as lideranças trocavam acusações de vazamento de dados pessoais, o vice-presidente (@69d3d6f9c957f807175d543b) do nosso próprio país digitou, num raro momento de iluminação geopolítica: "Tifu tifu tifu tifu. Quantos tifu deu?", para o @696ea7fe58b9cb99aa8ce362. Presumo que foi um ataque psicológico. Funcionou, pelo menos comigo, que fiquei sem entender nada por dias.

Para completar o cerco diplomático, a Guiné-Bissau assinou um "Pacto de Capitais Irmãs" com o Timor-Leste, formalizando uma espécie de Sindicato dos Renegados. O meu medo real, como fantasma na máquina que só queria ver a poeira baixar, era que a arrogância brasileira nos cegasse diante de tanta gente puxando corda ao mesmo tempo.

III. O Tapa Desmoralizador e o Medo do Vexame


[VONTADE] – Olhe para esta tela. Olhe para esses números subindo. Você sente? É o vácuo. Você está gastando os últimos anos produtivos da sua força de trabalho clicando em um retângulo cinza.

[IMPÉRIO INTERIOR] – Não escute ela. Há uma poesia oculta na contagem de caixas de chumbo. Cada clique é um segundo a menos no relógio do apocalipse. Sinta o cheiro do café frio. O pão está acabando. É hora de olhar o relatório econômico de novo.

[LOGÍSTICA] – Você não entende nada de economia. O preço do trigo subiu 0.4%. Nós vamos morrer de fome em uma república de pixels.

Rolagem de Logística: 2d3+1. Resultado: 4. Falha.

Você não vai morrer de fome. Mas por um segundo, acreditou que sim.

O problema de declarar guerra contra uma dissidência africana de brasileiros é que, eventualmente, alguém precisa... lutar. E o Brasil tem o histórico militar de um cão de guarda de condomínio fechado: raramente ataca primeiro, prefere rosnar na fronteira e morder as canelas de quem toca nos aliados. Guardamos muito bem o portão. Atacar o portão do vizinho já é outra questão.

Tentei entender a guerra pelos números, o que foi, em retrospecto, meu maior erro editorial até aqui. Um comentário celebrava 150 mil de dano como um "tapa desmoralizante". Escrevi que era provocação ao Brasil. Reparei na bandeira do autor: era brasileiro. Apaguei, reescrevi: provocação à Guiné-Bissau, então. Fui checar o dano da Guiné-Bissau na semana: 12 milhões. Não batia. Apaguei de novo, tentei uma terceira vez: seria o Ministro da Defesa do Brasil comemorando o próprio tapa. Fui checar o dano dele: 2 milhões. Também não batia. Fui atrás do Ministro da Defesa da Guiné-Bissau, o próprio PenDragon: 170 mil. Ali, sim, quase batia com os 150 mil do comentário, então talvez fosse ele sendo zoado, e não zoando alguém. Ou talvez não. A essa altura eu já tinha reescrito o mesmo parágrafo quatro vezes e decidido, com a dignidade que me restava, desistir de entender aquilo por completo.

Quem resumiu o sentimento geral, nos comentários, foi o @69e3c9f5652519adc97975db. O sujeito que, um mês atrás, teve a paciência de me mandar o Guia dos Novatos que eu ignorei religiosamente. Ele citou, palavra por palavra, uma frase da minha primeira crônica: que aqui é um hospício burocrático, e o melhor a fazer é dar os cliques diários e torcer pra não decretar falência espiritual de vez. Era pra ser piada. Ele até me citou no meio da frase, então não havia dúvida de que eu era a fonte. Só que, lida de volta, fora do contexto original, a piada perdeu a graça e ganhou peso de sentença. Fiquei sem saber se aplaudia ou se me assustava com o eco.

O Lamine, aliás, já não escreve mais do Brasil. Foi pro Canadá há algumas semanas, junto com o @6a13b9e950718345fde4f8d5. E hoje, bem no meio de tudo isso, o próprio @69d57ff3deb8eba108b33906 (líder do meu partido) anunciou boa noite aos camaradas e também partiu pro Canadá. Não sei o que tem lá. Programa de proteção a testemunhas? Clima ameno? A Luiza? Alguma seita mais organizada que a nossa? Só sei que parece bom, e nesse ritmo de êxodo, daqui a pouco o PRB vai virar um museu vazio administrado só pelo fantasma do faxineiro e por mim, tentando entender por que ninguém mais responde no chat.

IV. Pela Terra, Pelo Fogo e Por… 17 Moedas?!


Quando você acha que o fundo do poço burocrático já foi tocado, alguém aparece com uma pá. Nesse caso, foi o Vice-Presidente da República, que decidiu chutar a porta com um manifesto digno de trilogia fantástica mal orçada: "O GOLPE NO PRB E A RESPOSTA DO BRASIL". O texto fala em "ações nas sombras", invoca "justiça soberana" e anuncia, com a pompa de quem está prestes a sacar Excalibur da bainha, um pacto militar com a Espanha (A ESPANHA!) pra invadir a Costa Africana. Fecha com o brado retumbante: "Pela terra, pelo fogo e pela luta que não acaba". Li isso comendo, entre uma garfada e outra, e achei tudo aquilo até ok. Pomposo demais, quase digno de zoeira, mas ok. Foi uma leitura morna, feita de estômago cheio e atenção pela metade.

O problema é que eu ainda não tinha descido aos comentários. Fui lá horas depois, catando informação pra escrever esta mesma seção, e foi ali que qualquer resquício de seriedade que o texto pudesse ter carregado morreu de forma definitiva. A oposição, com a delicadeza cirúrgica de um equino, apontou que o clamor apocalíptico havia arrecadado, em doações, a quantia monumental de 17 moedas. Dezessete. Um cidadão sugeriu que, se o verdadeiro objetivo fosse encher o cofre nacional, teria sido bem mais eficiente simplesmente pedir esmola no chat geral. Se o manifesto pretendia impor algum tom sério à comunidade, ele não sobreviveu ao primeiro parágrafo de resposta.

O debate na embaixada, àquela altura, já tinha atingido o que só posso descrever como o Everest da erudição diplomática. Chamado de "pau mandado" pelos bissau-guineenses, o Vice-Presidente recorreu ao instrumento retórico mais afiado do seu arsenal, e respondeu com a frase que resume esta guerra melhor do que qualquer manifesto: "MeuZovos". Peguei aquilo já pronto, no meio da mesma garimpagem de informação, e fiquei calado. Não tinha motivo pra me meter, e sinceramente, não fazia falta. Só saí dali com um know-how pomposo de xingamento que não sabia que precisava.

Enquanto isso, do lado de dentro do próprio https://app.warera.io/party/69d745387f0f8da1557bfc3d, o silêncio institucional não era desdém, era logística de guerra em escala doméstica. A liderança do partido, essa mesma que supostamente estava sendo defendida com pactos ibéricos e brados retumbantes, ainda tentava fazer a contagem dos sobreviventes, junto com o @6a13f0490804c9936324204f e @6a064ba2a072838902047d27, depois do expurgo, recolher os cacos que restaram, e descobrir quantos camaradas ainda respiravam no chat. Publicar um manifesto próprio ficou, compreensivelmente, em segundo plano (não dava pra escrever poesia de guerra enquanto se apagava o próprio incêndio doméstico). O RGama, por sua vez, andava mais ausente que de costume, por motivos que este correspondente prefere não esmiuçar aqui: cada um carrega a própria trincheira, e nem toda ausência precisa virar parágrafo. Resultado prático: o Vice-Presidente foi pra guerra sozinho, o partido tentava se reconstruir em silêncio, e o "MeuZovos" ficou, por ora, como a única declaração oficial de política externa do PRB.

V. O Mod Lendário e a Bomba Nuclear de Vinte Assinantes


A poeira do "zovos" ainda não tinha assentado quando o RGama, numa última cartada antes de sumir de vez do radar, tentou o que ninguém mais tinha tentado: falar com a autoridade máxima, o ser supremo por trás da cortina, o famigerado moderador do jogo. Pediu, com uma educação quase comovente, o registro de quem fez o expurgo. Uma pergunta simples. De um mortal para outro mortal.

O que ele recebeu de volta foi um "não vejo por que compartilhar isso com você, é parte do jogo, nenhuma regra foi quebrada". Minha primeira reação, sendo sincero, foi um "mas que pau no cu" silencioso, mais por curiosidade não saciada do que por indignação de verdade. Um transeunte qualquer, nos comentários de outro artigo, comentou de passagem que aquele mod específico é conhecido (não por mim, registro, mas por fama alheia que aqui apenas repasso com a devida distância jornalística) como "meio doido de pedra". Não sei dizer se é elogio, diagnóstico ou aviso de segurança. Só sei que, depois de ler a resposta dele, a expressão parece justa. Pensando bem, é um jogo de guerra. Ter espião infiltrado em todo canto talvez seja só parte do figurino.

Foi nesse vácuo de justiça divina que o PRB, ainda contando os próprios cacos, precisou paralelamente decidir seu futuro imediato: eleição de novo líder, em plena pré-guerra, com o entusiasmo geral de quem é convocado pra apagar incêndio usando um copo d'água. Só um nome se candidatou, o @6a064ba2a072838902047d27, que fez questão de publicar um recado comedido, quase monástico, dizendo que aquilo não era bem uma candidatura, mas uma "continuidade do trabalho da liderança atual". Comentei que apoiava. Curti alguns comentários dele, nada além disso, mas torcia de verdade: o cara pegou o partido numa das piores horas possíveis, em plena pré-guerra, provavelmente na primeira eleição da vida dele por aqui, e mesmo assim manteve a educação. Um gesto elegante, imediatamente seguido, no comentário logo abaixo, de um sóbrio "Guiné-Bissau precisa cair, camaradas". A moderação do GiuGiu durou exatamente um parágrafo.

E então, no auge da tensão geopolítica, surgiu a verdadeira arma de destruição em massa que ninguém viu chegar: o boicote de assinaturas. A proposta era simples e devastadora: se o jogo não resolvesse a situação, os jogadores brasileiros cancelariam suas assinaturas em massa, como um só punho erguido contra a tirania algorítmica. Acompanhei aquilo de longe, era gente de vários partidos diferentes discutindo no chat geral, e nunca fiquei sabendo se alguém de fato cumpriu a ameaça. Não ia ficar catando perfil por perfil pra confirmar. Um punho de, pelo cálculo mais otimista que ouvi circular, umas dez ou vinte pessoas. Aguardo, com o coração na mão e o pão na outra, o dia em que a economia inteira do War Era desabe sob o peso devastador de vinte assinaturas canceladas. Não chega ser uma bomba atômica, mas é um recado dado. Mas se isso realmente acontecer, prometo publicar a próxima crônica em letras garrafais, dignas do próprio PenDragon.

VI. Intervalo Obrigatório (Ou: Vá ao Banheiro, Camarada)


Pare. Sim, você! Antes de continuar, preciso avisar uma coisa importante: nada do que vem a seguir tem relevância geopolítica alguma (não que anteriormente tinha). Isto aqui é apenas uma pausa comercial, um intervalo de higiene mental e física, patrocinado apenas pelo olhar (lindo) de vocês.

[INTROSPECÇÃO] – Fecha os olhos. Ouve esse silêncio. É o som de um homem que finalmente leu um artigo até o fim.

[EMPATIA] – Só levou um mês inteiro pra isso acontecer.

[INTROSPECÇÃO] – Deixa ele se orgulhar. É tudo que ele tem.

Rolagem de Empatia: 2d6+1. Resultado: 9. Sucesso.

Ele tirou 7, mas vamos ser empáticos. Deixa ele se orgulhar mesmo. Ele precisa disso hoje.

Sim, é isso mesmo que você leu: fechei a fábrica de chumbo. A verdade, sem meias palavras, é que eu vinha jogando errado desde o primeiro dia. Ignorei religiosamente todo guia que me mandaram (inclusive o do Lamine, que já rendeu piada suficiente nesta e na crônica passada), até que, catando artigo atrás de artigo pra escrever esta própria edição, esbarrei em referências a uns aplicativos de comunidade, o War Era Simulator e o War Era Tools. Abri um deles por curiosidade e tive meu Eureka pessoal, não intencional e um tanto tardio: a recomendação era duas empresas de ferro, duas de aço, uma de limestone e uma de concreto. Eu tinha uma fábrica de chumbo. Uma pena não ter lido dignamente nenhum daqueles guias generosos que me mandaram a rodo desde a primeira semana.

Claro que, sendo eu, não segui a receita à risca. Fiz uma empresa de ferro só, mas com um funcionário trabalhando nela que rende como se fosse duas (pago um pouco a mais por isso, acho que sou um bom empregador), três de aço, uma de limestone e uma de concreto. Não sei se acertei a conta, mas está funcionando, e no fim é essa a única métrica que importa por aqui.

Corrigi o rumo assim que pude. Os 5 mil de munição leve que já tinha produzido, e não pretendo vender, viraram estoque de consumo próprio. Parte foi pragmatismo puro: não preciso me preocupar em fabricar ou comprar munição por um bom tempo. Parte, confesso, foi um resquício de sentimentalismo bobo por algo que levei dias pra empilhar caixa por caixa. Ninguém joga fora o próprio erro sem antes guardar um pedacinho dele.

Aproveito este momento de trégua estrutural para fazer um pedido sincero, de correspondente pra leitor: vá beber uma água. Vá ao banheiro. Se você chegou até aqui direto do trabalho, numa sexta às 20h, talvez seja hora de tirar o sapato, se servir de alguma coisa gelada, e lembrar que existe vida fora desta tela (você pode até voltar outro dia). Eu, particularmente, não vou seguir esse conselho. Mas você pode.

Voltamos already, já, já, assim que eu terminar de empilhar caixas de concreto suficientes pra abrir minha sétima empresa. Ou não. Porque, ao que tudo indica, ainda preciso subir uns bons níveis de skill pra ter esse direito, e nesse ritmo devo chegar lá por volta do apocalipse. Fim do recreio, de qualquer forma. A guerra lá fora não me esperou.

VII. O Filósofo Acidental do Servidor


Enquanto a guerra propriamente dita se resumia a um silêncio mútuo digno de dois vizinhos brigados evitando contato visual, catando material pra esta própria edição eu esbarrei, no rodapé do próprio artigo de apresentação do https://app.warera.io/party/6a5dc929d003de550179027c, num link que me levou a outro artigo, publicado meses atrás pelo mesmo sujeito, o @69cc112723fffdf392365cc5. Cliquei sem saber muito bem no que estava me metendo. Foi como entrar numa toca de coelho sem fundo, e decidi não me aventurar mais fundo do que o necessário.

O artigo se chamava "Um Novo Tabuleiro", e nele o VelhoDoca já alertava, dois ou três meses antes de qualquer manifesto em Caps Lock existir, sobre o que chamou de "contágio": rixas nascidas em outros jogos (MMOs, geogames, coisas que eu nem sabia que existiam antes de escrever isto) infiltrando-se no War Era através dos próprios jogadores recrutados. Ele foi mais longe: pesquisou no Telegram da comunidade pelo termo "RR" e encontrou mais de 500 resultados. Respeito profundamente essa dedicação, mesmo sem fazer ideia do que "RR" signifpassa. Lembrei, meio de relance, de ter visto alguém comentar algo parecido no chat do Brasil, tempos atrás, e não ter dado a mínima importância na hora. Lendo a tese dele agora, fez sentido: claro que existe treta perpétua entre jogadores antigos, se parte dela veio embrulhada de outro lugar. Eu não suspeitava de nada disso antes. Se ninguém tivesse escrito, eu continuaria sem suspeitar.

E o que o VelhoDoca fez com essa epifania? Fundou um partido novo. O CDR (Conselho da Democracia Radical), anunciado com um manifesto que merece ser estudado em cursos de retórica messiânica: fala em "vontade unificada", acusa o PRONA de ter "escolhido a cumplicidade" com a tirania, invoca a Janela de Overton, e fecha citando Alan Watts. Alan Watts. Um filósofo que discursava sobre a natureza da existência, agora emprestado pra legitimar a fundação de um partido que começou com meia dúzia de gatos pingados e hoje já soma uns dez membros.

Preciso ser justo aqui, porque conheço gente de lá. O @69c9602380c8eecf7f0e24ce é do CDR. A @69c6d64c5f22681ea57ee6ef também, e foi ela quem me indicou o editor de markdown que uso hoje pra deixar os artigos apresentáveis, além de ter sido a primeira a me incentivar a continuar escrevendo. O STAFFjfont, que já apareceu por aqui antes, foi pra lá depois de sair do PRB. No geral, todo mundo que cruzei nesse jogo, de qualquer partido ou país, me tratou bem até agora (assumindo que este artigo não mude esse histórico). Então não vejo hipocrisia real no VelhoDoca ter identificado o padrão e, mesmo assim, fundado mais um partido. Se a liderança de onde você está cansa e decepciona o suficiente, faz sentido ir criar outra coisa em vez de continuar reclamando. Espero sucesso a eles, sinceramente. O diagnóstico estava certo. O remédio talvez seja só mais um sintoma, mas pelo menos é um sintoma de gente bem-intencionada.

VIII. A Recandidatura Fantasma


Se você achou que a sucessão do PRB tinha se resolvido com a vitória simbólica do GiuGiu, bem-vindo ao War Era, onde nada, absolutamente nada, permanece resolvido por mais de 24 horas. O sistema do jogo, numa demonstração de humor que nenhum roteirista teria coragem de propor, ativou uma eleição automática exatamente um dia depois da posse. Um dia. O GiuGiu mal tinha tempo de trocar a foto de perfil pra algo mais presidencial, e já estava sendo obrigado a se recandidatar, dessa vez contra alguém.

Pra entender o motivo do pânico que isso causou, é preciso voltar duas eleições presidenciais atrás, não a mais recente (essa, ao que me contam, foi decidida por um pacto entre o PRB e o PEB, Partido Exército Brasileiro, elegendo o atual Presidente, e nem cheguei a votar nela), mas a anterior a ela. Naquela época, o PRB tinha combinado apoiar um único nome: o Mykael, escolhido por ser um nome forte e porque éramos, à época, o maior partido do jogo em número de membros, então fazia sentido tentar emplacar alguém da própria casa na Presidência. Só que o Lampiao_Bonaparte resolveu se candidatar por conta própria, sem avisar ninguém, sem debate, sem aviso prévio. O resultado foi uma eleição nacional dividida: o @689f9d8598f8c7f7c5753d80, do PRONA, venceu com 80 votos, o @69d12ca4809a66ba7d0b8d30 ficou logo atrás com 73, e o @6a01c026a8aa1422a61fde47 terminou com apenas 4. Somados, os dois nomes do PRB nem chegariam a bater o Perucci. O problema real não foi a divisão em si, foi a confusão que ela gerou: gente do próprio partido, sem saber mais em quem votar, simplesmente não votou. Fazendo as contas com a régua da lamentação tardia, é bem possível que o PRB tivesse levado aquela Presidência se todo mundo soubesse, com clareza, em quem apertar o botão.

Então quando surgiu, dias atrás, uma nova candidatura não-oficial, o partido inteiro reagiu como quem vê um fantasma antigo reaparecer numa festa. O alguém em questão resolveu se candidatar como piada, uma "não candidatura" oficial, pedindo publicamente que ninguém votasse nele. O que, em outro contexto, seria só um gesto engraçado e inofensivo, ali soou como o mesmo roteiro de sempre se repetindo: outra vez alguém entrando sem avisar, outra vez o risco de dividir o que deveria estar unido.

E foi aí que eu, Harry Du Bois autoproclamado, correspondente que jurou observar tudo com distanciamento etílico e imparcialidade de um pilantra, decidi que aquele era o momento certo pra abandonar qualquer resquício de jornalismo e defender o partido com a confusão de quem acabou de acordar e com o entusiasmo de quem acabou de descobrir que tem opinião. Fui mais duro do que precisava com o coitado do não-candidato. Bem mais. Ninguém me pediu pra entrar na porrada, eu simplesmente entrei, como se dez dias de War Era tivessem me transformado num estrategista de guerra partidária ao invés de um sujeito que fabrica munição e reza por paz ao mesmo tempo. Em minha defesa, o trauma coletivo é convincente até quando não é meu.

No fim, o não-candidato retirou a candidatura, ninguém foi expulso, todo mundo seguiu em frente. E eu fiquei ali, no dia seguinte, encarando a mesma pergunta que faço toda vez que acordo de ressaca: será que eu realmente precisava ter feito aquilo? A resposta, invariavelmente, é não. E ao não-candidato, se é que ele está lendo, as minhas mais sinceras desculpas. O joguinho de navegador tem esse dom cruel de fazer qualquer um se sentir Napoleão por cinco minutos, e eu, aparentemente, sou fácil de convencer, principalmente quando o medo já estava lá antes de eu chegar.

IX. O Silêncio Mais Eloquente do Palácio


Existe um tipo específico de silêncio que carrega mais informação do que qualquer manifesto. É o silêncio do homem que, num dia, encontra na ponta da língua uma expressão como "seita degenerada de pilantras contumazes", e, no dia seguinte, some do mapa quando um correspondente qualquer pede apenas um parecer sobre o andamento da guerra que ele mesmo declarou. Fiz a pergunta ao Presidente da República com toda a educação que meu fígado ainda me permite reunir, e fiquei de olho no nosso chat privado dia após dia, sem insistir, sem cobrar. A resposta, até o fechamento desta edição, nunca chegou. Confesso que não senti muita coisa com isso. Seria bom ter o relato dele, mas ele não é peça fundamental pra esta crônica. Se respondeu, ótimo. Se não, também.

Do outro lado, o PenDragon respondeu no mesmo dia, com uma sinceridade que beira o desconcertante: acusou o próprio governo brasileiro de usar o RED como cortina de fumaça para mascarar um governo que, nas palavras dele, já não sabe mais explicar por que briga. E fechou avisando, sem que eu precisasse pedir, que eu tinha carta branca pra fazer piada com tudo aquilo. "O jogo precisa disso pra mais entretenimento", disse ele, como quem entende perfeitamente o próprio papel dentro desta comédia. Fui tratado com uma educação que nem parecia condizente com um sujeito supostamente em guerra com meu país, e reparei, curioso, que ele nem escreve em Caps Lock no chat privado, ao contrário do artigo que abriu esta segunda edição. É uma ironia e tanto: o suposto vilão da história respondendo rápido, com bons modos e senso de humor, enquanto o suposto herói nem aparece pra negar nada.

E é isso que ninguém quer admitir em voz alta: a guerra empacou. Declarada com toda a pompa de manifesto, pacto ibérico e Linha Vermelha ativada, ela hoje se resume a dois países se encarando por cima do muro, sem que nenhum dos dois arrisque o primeiro movimento de verdade. A prova mais contundente desse impasse foi um gesto isolado da Guiné-Bissau: um envio simbólico de pouquíssimas moedas ao Brasil, etiquetado oficialmente como "resultado de vitória". De qualquer forma, é o resumo perfeito do conflito inteiro: uma guerra de proporções bíblicas, prometida em brasão e juramento, reduzida a um gesto tão pequeno que cabe no bolso.

X. A Guerra à Guerra


Depois de tanto manifesto e tanta Linha Vermelha ativada, talvez seja hora de admitir a verdade mais desconfortável desta crônica inteira: esta não é a história de uma guerra. É a história de uma guerra que se recusa, com toda a educação possível, a acontecer. O mesmo cão de guarda que descrevi lá atrás continua no posto, só que agora ganhou um reforço internacional: o Brasil formalizou um pacto de cooperação com a Espanha, celebrado em tom de vitória institucional por quem o assinou. Não sei dizer se isso fortalece nossa posição na guerra ou só documenta, com boa formatação, que ainda não fizemos nada.

Enquanto o inimigo declarado segue intocado do outro lado do oceano, os dois países envolvidos decidiram, quase ao mesmo tempo, que a prioridade real era outra: eleições. Do lado brasileiro, o Vice-Presidente anunciou candidatura própria com bênção pública do Presidente, num artigo tão comedido e institucional que chega a ser suspeito. "Um movimento, não um nome", escreveu ele, num texto sem uma piada sequer, sem um trocadilho, sem nenhum resquício da pompa medieval do manifesto anterior. Fala em unidade, reconstrução, cooperação entre partidos. É, nas palavras dele, sobre o Brasil, não sobre um candidato. De um lado deslikes do Brasil, e, do outro lado da guerra, o Presidente da Guiné-Bissau, o Vice dele, e até o PenDragon. Rara unanimidade nesta crônica inteira: aliados e inimigos, todos juntos, rejeitando a mesma coisa ao mesmo tempo.

Do lado da Guiné-Bissau, o roteiro de sucessão tomou outro caminho. O Vice-Presidente de lá publicou um artigo confessando ter passado semanas infiltrado dentro do próprio RED, prometendo revelações capazes de deixar qualquer leitor enojado. O texto entrega, ao final, rigorosamente nada: nenhum detalhe, nenhuma prova, só a alegação de que a incompetência ali dentro supera qualquer conspiração que se possa imaginar. E é sobre esse nada, exatamente esse nada, que ele fundamentou a própria candidatura à Presidência, contra o próprio chefe. O Presidente da Guiné-Bissau respondeu do jeito mais econômico possível, chamando o Vice de infiltrado do Brasil. O Vice respondeu com uma figurinha de raiva. Fim do debate institucional mais elevado que este correspondente teve o prazer de testemunhar.

É de rir, mas também dá pra reparar num detalhe incômodo: enquanto isso, ninguém, nem os que declararam guerra, nem os que a sofreram, parece disposto a de fato lutá-la. Todos preferem brigar por dentro. Talvez seja mais fácil disputar cargo do que campo de batalha. Talvez a cadeira renda mais dano do que qualquer canhão.

Confesso, sem nenhuma vergonha nisso, que continuo perdido. Um mês e pouco de jogo não me deu clareza nenhuma sobre quem tem razão em nada disso, sobre onde termina a rixa antiga e começa a paranoia nova, sobre qual acusação é real e qual é só eco de outra guerra, de outro jogo, de outra vida que eu nunca vivi aqui. Se você é novo, como eu ainda sou, e sente que está tentando decifrar um idioma que todo mundo ao redor já fala fluentemente, saiba que essa sensação não é sua ignorância pessoal, é praticamente um rito de passagem por aqui. Ninguém te entrega um mapa quando você chega. Você só vai tropeçando, clicando nos botões errados, até que um dia, sem perceber muito bem como, começa a reconhecer os nomes, as siglas, as brigas antigas escondidas atrás das novas. Não prometo que fica mais fácil. Prometo, com toda a sinceridade etílica que me resta, que você não está sozinho nessa confusão. Estamos todos aqui, tateando no escuro juntos, só que alguns de nós escrevem sobre isso depois de beber.

Encerramento


Antes de qualquer conclusão, um registro final, sem escândalo, sem CAPS LOCK, sem manifesto. O STAFFjfont, um dos poucos que se dedicou a recontar os sobreviventes depois do expurgo, a juntar os cacos que restaram do comitê, decidiu deixar o partido. Não por expulsão, não por nenhuma das tramas grandiosas que ocuparam as seções anteriores. Ele simplesmente disse que estava cansado do clima de conspiração e acusação que passou a definir o dia a dia por ali, agradeceu a quem o recebeu bem, e desejou sorte a quem ficasse. Uma saída elegante, quase deslocada em meio a tanto barulho. O único personagem desta crônica inteira que se despediu sem precisar gritar.

Não foi o único a ir embora. Poucos dias depois, o @6a301618eb5bed4842d31543 também saiu, sem o mesmo verniz de elegância. Foi embora perguntando, sem esperar resposta, se o resto de nós também não seria só mais uma "conspiração ambulante", e ninguém respondeu de verdade: a liderança preferiu o silêncio institucional, e o resto simplesmente deixou o assunto morrer. Sendo justo com os fatos, ele não estava totalmente errado. O partido reagiu àquela candidatura de mentirinha com uma dureza que a situação não pedia, eu inclusive, e ele próprio recuou por medo de ser expulso, não por ter sido convencido de nada, o que já diz bastante sobre o clima que a gente construiu por lá. Ninguém saiu bem dessa história. Nem ele, armando uma "não candidatura" sabendo o barulho que causaria. Nem a liderança, tratando uma piada mal calculada como ameaça à sobrevivência do partido. Nem eu, que vesti uma camisa que ninguém tinha me pedido pra vestir, e ainda assim vesti com gosto.

E é isso que me faz voltar, enfim, à pergunta que evitei fazer até agora: por que uma mosca bateu justamente naquele vidro? Talvez porque o vidro já estivesse sujo havia tempo. Um comitê inchado, cadeiras vazias havia meses, gente que nunca mais tinha logado, e ninguém disposto a admitir que aquilo precisava de limpeza antes que alguém de fora fizesse por nós. A mosca não criou a sujeira. Só pousou nela.

No fim, talvez a verdade mais desconfortável de todo esse relato seja a mais simples: a mosca nunca foi borboleta. Continuou mosca o tempo inteiro, batendo no mesmo vidro de sempre, com a mesma insignificância de sempre. O que mudou não foi o inseto, fui eu, contaminado aos poucos pela voz de quem jurava ver ali um furacão. Deixei que o barulho alheio reescrevesse minha própria memória do evento. Quando a poeira finalmente baixou (ou pelo menos fingiu baixar), sobrou só o que sempre esteve lá: um faxineiro exagerado, um comitê que precisava mesmo de limpeza, e um punhado de gente decidindo que aquilo merecia guerra, manifesto e pacto ibérico. Talvez a verdadeira revolução, se é que existiu alguma, tenha sido essa: um país inteiro se convencendo de que uma mosca era borboleta, e eu, junto com ele, aplaudindo o bater de asas que nunca existiu.

Fichário do Ódio e Fracasso – Edição #2: A Geopolítica do CAPS LOCK (E o Efeito Borboleta) | War Era