Fichário do Ódio e Fracasso – Edição #3: A Janela Aberta

Harry_DuBois14 de agosto de 2026entertainment


A folha em branco passou vinte minutos presa no rolo da máquina de escrever, intacta, enquanto eu tentava decidir se aquilo era bloqueio criativo ou eu voltando a dissociar. O café já tinha esfriado, a lâmpada fluorescente piscava com a insistência de um camelô e a tecla M emperrava sempre que eu tentava escrever a palavra miséria. Foi nesse estado de elevada disposição intelectual que me lembrei de Brás Cubas.

Brás Cubas, o célebre defunto-autor de Machado de Assis, encerrou suas memórias consolando a si mesmo com uma última vitória contábil: a de não ter tido filhos e, portanto, não ter transmitido a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. É uma reflexão elegante, sem dúvida, mas nascida da mais pura ingenuidade. Brás Cubas só se deu ao luxo de um pessimismo tão suave porque não viveu o suficiente pra conhecer o War Era. Se tivesse topado com os corredores mofados da nossa burocracia ou tentado entender a papelada de um veto diplomático numa sexta-feira à noite, sob a luz piscante de uma lâmpada fluorescente, não teria se preocupado apenas com a geração futura; teria peticionado ao universo para que sua própria certidão de nascimento fosse cancelada antes da primeira mamadeira.

Mas, pra a minha infelicidade e sorte da imprensa investigativa de sarjeta, eu nasci. E cheguei até aqui.

Bem-vindos à Edição de número 3, o capítulo final do que podemos chamar, sem nenhuma modéstia, de A Trilogia da Mosca. Se Brás Cubas usou a tumba como gabinete para inventariar as misérias humanas, este correspondente escolheu um método menos elegante: arrastar as botas pelo cimento queimado dos comitês, subir em barcaças estragadas e tentar transformar a nossa neurose coletiva em algo parecido com arte.

I. O Detetive Sem Cabeça


O ventilador de teto da minha sala gira num ritmo manco, emitindo um estalo metálico a cada três voltas que parece feito sob medida pra martelar o meu nervo óptico. Sento pra escrever, e as palavras já vêm prontas, como se tivessem sido guardadas numa gaveta cheirando a mofo e tabaco barato há dias, apenas esperando por esse momento. Dor de cabeça genuína. Etílica só em parte. O resto é cobrança acumulada de aluguel e relatórios atrasados.

Escrevo a primeira linha no bloco de notas amassado e ela soa boa, tem ritmo, tem o barulho seco de uma máquina de escrever antiga. Escrevo a próxima e percebo, com um atraso constrangedor, que já escrevi essa frase antes. A mesma. Quase palavra por palavra, num rascunho que amarrotei e joguei na lixeira semanas atrás e que, aparentemente, errou o alvo, caiu atrás da escrivaninha e se esgueirou, esperando a chance de voltar disfarçada de ideia nova.

Fiquei um bom tempo encarando a parede empoeirada, tentando decidir se aquilo era plágio de mim mesmo ou só o tipo de memória que um fígado cansado insiste em reciclar. Reli os arquivos do último caso em busca de alguma centelha, e o que voltou foi sempre o mesmo repertório: a mesma cadência de piada, o mesmo tipo de virada, o mesmo jeito de fingir surpresa diante de algo que, no fundo, eu já sabia que ia acontecer porque eu mesmo vi o rastro de graxa na calçada da vez passada. Não é exaustão, exatamente. É pior. É o platô. Aquele ponto em que a mão continua funcionando por puro reflexo, mas para de descobrir coisa nova, e só repete o gesto que já deu certo, na esperança de que ninguém note a costura.

Pensei em esconder isso de vocês. Reescrever de novo, com outras palavras, fingir que aquele parágrafo tinha nascido agora, fresco, inédito. Mas isso pareceu, de repente, exatamente o tipo de mentira institucional que eu passo edições inteiras zoando os burocratas por contarem. Então acho que vou fazer diferente dessa vez: não vou resolver o caso no primeiro ato, só vou registrar no diário de bordo que ele existe.

Porque é isso que eu sou quando todo o resto é retirado do fichário, e o próprio título já entrega o jogo: um detetive de segunda categoria, arrastando o sobretudo por vielas escuras, tentando decifrar um sistema que não quer ser decifrado, catando pista onde provavelmente só tem poça de óleo de motor e nem sempre encontrando solução no fim do beco. Às vezes, o caso mais difícil é entender por que o próprio investigador continua voltando à cena do crime, olhando para o cimento úmido, coçando a cabeça e, ainda assim, decidindo acender mais um cigarro e tentar de novo.

Bom. O criminoso da vez não sou eu, felizmente. Tem gente demais neste distrito merecendo mais atenção do que meu próprio bloqueio. Vamos ao que interessa, então, antes que eu decida que essa introspecção também já foi escrita numa ficha antiga.

II. A Novela Mexicana


Ajustei o sobretudo, dobrei o relatório de despesas e decidi que a única forma de entender o primeiro caso da minha pilha era colocar os pés na rua. Duas cadeiras vagas em jogo, dois oceanos de distância, e duas cidades com atmosferas tão distintas que pareciam ter sido erguidas por construtores de séculos diferentes.

Minha primeira parada foi a sede central em Brasília. O Palácio estava tão absorto na própria elegância institucional eloquente que a campanha por aqui cheirava a cera de assoalho nova e papel timbrado. Nenhum candidato atacou o outro pelos corredores. Nenhum grito, nenhuma ameaça na cantina, sequer um panfleto jogado no chão. Foi tudo tão morno quanto café esquecido na garrafa térmica, tão civilizado quanto um chá da tarde entre senhoras da alta sociedade que já combinaram de não tocar em assuntos indigestos (essa frase cansou mais do que a eleição). O @69d3d6f9c957f807175d543b passava pelos auditórios vestindo seu terno cinza de sempre, sério, institucional, sem uma piada sequer no discurso. O @69c9602380c8eecf7f0e24ce respondia nos corredores com igual polidez cívica. E o @6a301618eb5bed4842d31543, encostado numa coluna de concreto, mantinha-se em silêncio absoluto, cumprindo sua sina com a postura de quem só queria estar em outro lugar.

Antes de atravessar o oceano, devo uma correção ao Rafael. Na edição passada, escrevi sobre a faxina do /party/69d745387f0f8da1557bfc3d como se ninguém tivesse percebido a sujeira até o intruso aparecer com a vassoura. Não foi assim. O Rafael já havia proposto duas vezes a remoção dos membros inativos, e as duas propostas foram rejeitadas por quem preferia conservar o comitê inchado. A mosca não apareceu porque ninguém enxergava o vidro sujo; apareceu porque gente suficiente decidiu que era mais cômodo não limpá-lo. Fica corrigido o registro.

Se fosse só isso, eu teria carimbado a ficha e voltado pro meu escritório. Mas a investigação me exigia ir além do porto. Peguei uma barcaça caindo aos pedaços, cruzando um Atlântico escuro e pesado de óleo diesel, até desembarcar no cais úmido de Bissau.

A Guiné-Bissau me recebeu com cheiro de maresia salobra, fumaça de gerador a óleo e o som de uma disputa que misturava tragédia grega, comédia rasgada e novela das oito.

Capítulo Uno. Assim que pisei no porto, vi pregado num poste de madeira o manifesto do @69c6b486bf8913d0ca29ad92: um cartaz com a imagem dele mesmo segurando um pedaço de pau na mão, encarando o @69c7e37378dcee5f4256c1ac caído na lama, com letras garrafais perguntando se alguém achava que ele estava brincando. Não estava. Na calçada do comitê vizinho, o dom_joao reagiu com a fidalguia possível, pregando no quadro de avisos a imagem de um gato-capeta esfregando as mãos, como quem maquina uma vingança no escuro. Encontrei-me com ele, e numa entrevista coletiva improvisada na sarjeta, chamou a candidatura do próprio Vice de facada nas costas, jurou que não esperava aquilo dos mais próximos e prometeu continuar no poder.

Capítulo Dos. A plebe local logo formou um círculo na praça pra vaiar o Presidente. Um transeunte gritava, pra quem quisesse ouvir, que finalmente chegara ao fim a era tenebrosa de DJ no poder. O próprio @69d053cf042b66cc1c6f55d2, Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo, saiu na sacada do ministério pra se juntar à turba contra o próprio chefe, gritando que o povo da Guiné queria paz e que João só queria guerra. Um ministro atacando o próprio Presidente na sacada oficial é o tipo de insubordinação que em qualquer país sério daria demissão por justa causa. Aqui, rendeu aplausos da multidão na calçada.

Capítulo Tres, o clímax. Do outro lado da rua, o @69d7fb97cc676fbecc58b3b4 subiu num caixote de madeira e decretou, com a voz rouca de quem leu a sentença final, que Dom João seria preso. O Skindreds respondeu sem sequer elevar o tom de voz, apenas cravando a lâmina com frieza: avisou que o sujeito não ganharia nem pra síndico.

Interlúdio, com o Ministro no meio do fogo cruzado. Entre o gato-capeta e a promessa de prisão, encontrei o @696ea7fe58b9cb99aa8ce362 sentado num banco de praça sob a chuva fina. Perguntei como um Ministro da Defesa consegue manter a sanidade servindo a dois homens que estavam prontos pra se degolar na praça pública. Ele me olhou devagar, deu uma tragada num cigarro que teimava em apagar com a umidade e respondeu com uma calma assustadora: garantiu que o dia estava tranquilo e que os dois estavam se tratando bem como jamais estiveram. Não sei se aquilo era ingenuidade ou o sintoma de um homem cuja mente já tinha sido corroída pelo ambiente de Bissau a ponto de achar aquilo perfeitamente normal. De qualquer forma, ele parecia ser o único sujeito na cidade que não estava segurando uma garrafa quebrada.

Epílogo da novela que nunca termina. Olhando aquele organograma pregado na parede da prefeitura, confesso que desisti de entender a hierarquia local. Entro no prédio num dia e o Skindreds é Vice. Volto na tarde seguinte e ele virou Ministro dos Negócios Estrangeiros. Volto depois da eleição e ele é Vice de novo. É um governo bipolar, em que as cadeiras trocam de dono como cartas num jogo de baralho conduzido por um esquizofrênico num porão escuro. Nenhum capítulo fecha, ninguém entende o roteiro, e eu continuei ali na calçada sem conseguir desviar os olhos da cena.

III. Duas Coroas, Nenhuma Surpresa


[COMPOSTURA] – Não atualiza a página de novo. Você acabou de atualizar há dez segundos.

[LÓGICA] – Os votos não vão mudar só porque você está olhando com mais intensidade.

[COMPOSTURA] – Ele vai atualizar mesmo assim.

Rolagem de Compostura: 2d6+0. Resultado: 5. Falha.

Você atualiza a página pela sétima vez em três minutos. Nada muda. Nada nunca muda nesses três minutos.

Se a novela da Guiné me deixou sem saber quem é o vilão, ao menos numa coisa ela não deixa dúvida nenhuma: o final. As urnas fecharam dos dois lados do oceano ao mesmo tempo, e diferente de tudo que acabei de contar, aqui não sobrou reviravolta nenhuma.

No Brasil, o Rafael venceu com 48 votos contra os 40 do Gabriel, margem confortável, mas sem escândalo, com o Marx_Jorge_Jr fechando a votação exatamente como abriu a candidatura: com zero votos, cumprindo à risca o próprio pedido de campanha, que era não ser escolhido por ninguém. Votei, como manda a lealdade de partido, e não vou entrar em detalhes sobre isso. Segredo de urna existe por um motivo, e não sou eu que quero falar sobre o assunto. O que posso dizer, sem comprometer nada, é que essa foi a primeira vez na história do PRB que o partido elegeu um Presidente da República. Depois do faxineiro, da guerra, do êxodo pro Canadá e do velório sem enterro, chegar até aqui tem um peso que nenhum resultado apertado consegue diminuir.

A reação pública rendeu um retrato fiel do clima interno do partido. Só o Gabriel, o derrotado, teve a elegância de parabenizar o vencedor publicamente. O Marx_Jorge_Jr, ainda carregando as rusgas das edições anteriores, não disse uma palavra. Nem elogio, nem crítica. Só o silêncio de sempre, que já virou marca registrada dele.

Do outro lado do Atlântico, a Guiné-Bissau confirmou o próprio roteiro depois de todo aquele circo. Depois de ministros exigirem paz em praça pública, de marechais decretarem ordem de prisão e do próprio Vice garantir que o Presidente não se elegia nem pra síndico, as urnas abriram e a tragédia virou estatística: dom_joao reelegeu-se com 12 votos, exatamente o dobro dos 6 do Skindreds, enquanto um único voto solitário caiu nas mãos de um tal @688eb2c32d4dc97774c6e8c4, figura que este correspondente nunca ouviu falar antes, nem depois. Toda a fúria dos revoltosos, os artigos inflamados e a promessa de linchamento político evaporaram no exato segundo em que o eleitorado apertou o botão da urna. Aparentemente, o rito democrático guineense obedece à lógica estrita do horário nobre: quanto mais jurado de morte o sujeito é na quinta-feira, mais folgada é a vitória dele na sexta.

No fim, os dois países escolheram continuidade. Um trocou pouco, o outro nada. E o resto de nós, espectadores ou personagens, seguiu clicando, esperando pelo próximo capítulo, seja ele qual for.

IV. Depois das Urnas


O Rafael tomou posse com o rigor institucional de quem carrega o peso do mundo, decretando ECO-MODE nacional para arrumar a casa. O Gabriel começou a erguer a pedra fundamental da sua biblioteca pública. E eu, que passei a noite lendo atas de governo e manifestos partidários, devo ter dormido por dez minutos com a testa apoiada no teclado. Tentei registrar os primeiros atos do novo governo com a sobriedade adequada. Escrevi: 'o país entrava em uma nova etapa institucional'. Apaguei. Escrevi: 'o tabuleiro se reorganizava depois das urnas'. Apaguei de novo. Na terceira tentativa, a fita da máquina enganchou, o café tombou sobre as anotações e meu cérebro recusou formalmente continuar produzindo mais do mesmo.

ESSA SEÇÃO NÃO TA FICANDO BOOOOOAAAAAAA!!!

(MUSICA: Uma bela lambada quente em looping. CENA: A sala principal da Hacienda de Dale D'alessandro. Rafael está com las manos na cabeça, andando de um lado para o outro. Dom João o encarando com o olhar pesado de quem carrega um segredo obscuro.)

DOM JOÃO: (Apontando o dedo com ferocidade) ¡Se acabo el mistério, Rafael! ¡Yo descobri toda la verdad que tu família tentou esconder! ¡Tú és, na verdade, minha própria geladeira eletrolux duas portas que ganhou vida através de uma simpatia!

RAFAEL: (Dando três passos para trás, horrorizado) ¡No, Dom Juan! ¡Eso es una mentira de la servidumbre! ¡Yo tengo corazón, yo no tengo gaveta de gelo!

DOM JOÃO: ¡Não mientas para mí! ¡Y tiene mas! ¡Yo não sabia que tua mãe era, na verdade… mi próprio caballo de corrida!

RAFAEL: (Chorando lágrimas) ¡No pode ser! ¡Isso es impossível, Dom Juan! ¡Yo mamava na minha mama até os doze anos y ela me levava no clube todas as tardes para jogar xadrez! ¡Un caballo talvez, pero un caballo de corrida nunca saberia jogar xadrez, elle no tiene diedos!

PENDRAGON: (Saindo de trás de uma cortina, vestindo um colete salva-vidas por cima do terno) ¡Atención a todos os passageiros do ônibus! O cobrador já passou para recolher os tíquetes!

DOM JOÃO: ¡Cállate, papa! ¡Estamos no meio da maior crise existencial desta família!

PORCO: UIIIIIIIIIIINNC UIIIIC

RAFAEL: (Dando um pulo de pavor e apontando uma colher de pau no teto) ¡¿Pero, qué caralho es eso?!

SKINDREDS: (Surgindo calmamente da cozinha, limpando as mãos num pano de prato sujo e com um fedora na cabeça) ¡Calma, todos! Yo coloquei essa colher no teto para efeitos dramáticos. Mientras ustedes discutiam se a mãe de Rafael tinha casco ou jogava xadrez, yo já assinei todos los papies da herança da familia!

DOM JOÃO: ¡Skindreds! ¡Tú não podes hacer isso! ¡Essa herança pertence aos herdeiros de sangue y aos eletrodomésticos da casa!

RAFAEL: (Olhando fixamente nos olhos de Dom João, ignorando Skindreds completamente) Espera... Dom Juan... se me mama era um caballo y eu sou uma geladeira... nada disso importa. Porque la verdad es que... ¡yo te amo, Dom Juan! ¡Yo te amo desde o dia em que você me ligou na tomada de 220V pela primeira vez!

DOM JOÃO: (Suavizando a expressão, dando um passo em direção a Rafael) ¡¿Rafael?! ¡¿Tú... tú me amas?! ¡Dios mío, estoy me congelando de amor...!

SKINDREDS: (Saca uma faca de manteiga de plástico comicamente gigante, dá três passos silenciosos e apunhala Dom João brutalmente pelas costas) ¡Pois agora você vai amar no colo do capeta! ¡A herança es TODA MÍA! ¡Os 2 milhões de pesos argentinos son mios!

DOM JOÃO: (Caindo nos braços de Rafael em câmera lenta extrema) ¡Aaaargh! ¡Mi espinha dorsale! ¡Skindreds... tú me apunhalaste, yo no voi te perdoar!

PENDRAGON: (Começa a aplaudir entusiasticamente enquanto pega um abajur) ¡Eu quero uma calcinha!

PORCO: UIIIIIIIIIIINNC UIIIIC

(A câmera dá cinco zooms ultrarrápidos alternando entre a cara de dor do Dom João, o choro desesperado de Rafael segurando o amado, o sorriso diabólico de Skindreds, o porco olhando fixamente para a lente e o Pendragon tentando comer o cabo do abajur.)

V. Intervalo Obrigatório (Ou: Perdão, Camarada)


Antes de qualquer coisa, um pedido sincero de desculpas pela seção anterior. Eu sei que aquilo fugiu do roteiro. Sei também que não vou explicar, justificar nem me redimir por isso, porque explicar a piada é o único pecado que esta crônica ainda não cometeu, e pretendo manter esse recorde limpo.

[RETÓRICA] – Você podia pelo menos tentar parecer arrependido.

[DRAMA] – Ele está arrependido. Olha essa cara.

[RETÓRICA] – Essa é a cara dele.

Dito isso, aqui vai a pausa de sempre, pro leitor que chegou até aqui direto do trabalho numa sexta à noite: vá beber uma água, estique as costas, lembre que existe vida fora desta tela. Eu, como sempre, não vou seguir esse conselho.

Já que estamos de intervalo mesmo, deixa eu aproveitar pra encher linguiça com um pouco da minha rotina, do jeito mais honesto e menos editado possível. Acordo, olho as barras de trabalho cheias, decido em qual delas vou bater a cabeça primeiro, nas minhas empresas decido errado na maioria das vezes, como o mesmo pão de sempre, reviso os preços do mercado achando que dessa vez vou entender alguma coisa de economia, e não entendo. Repito isso em looping, todo santo dia, com a fé inabalável de quem acredita que a rotina, sozinha, algum dia vai virar propósito. Ainda não virou. Mas o clique continua satisfatório o suficiente pra eu não questionar demais.

Nas notícias que realmente importam por aqui: contratei mais um funcionário. Acima da média do mercado, porque aparentemente sou incapaz de negociar qualquer coisa direito, seja em jogo ou fora dele. A reorganização mensal de recursos bagunçou tudo durante a troca, números embaralhados, produção capenga por uns dias, o tipo de caos que faz você duvidar da própria planilha. Já normalizou. Não sei explicar como nem por quê. Apenas aceitei e segui em frente, que é basicamente o lema não oficial deste fichário inteiro.

Olha para aquilo. Não, não olha de relance. Para por dez segundos e olha com atenção.

Não é só um copo descartável de café de cinquenta mililitros, amassado pela metade, boiando numa poça de água de chuva misturada com óleo de motor, bem ali na sarjeta em frente ao comitê.

Às vezes tem tanta beleza no mundo que eu sinto que não vou aguentar. Sinto que o meu fígado vai derreter e o meu coração simplesmente vai dar um nó e explodir.

Mas aquele copo... ele não está tentando ser uma xícara de porcelana chinesa. Ele não tem ambições partidárias. Não se candidatou ao Congresso, não está preocupado se a França vai invadir o litoral, não votou no PRB e não passa as madrugadas num servidor de Discord tentando entender se a Guiné-Bissau é um proxy do Brasil por causa de um canal no Telegram.

Ele é absolutamente imune à nossa neurose.

Olha como a brisa da tarde sopra na poça. A água chacoalha e ele dá uma pirueta graciosa, meio trágica, como um bailarino bêbado no salão de uma boate decadente que já fechou as portas há duas horas. É uma dança silenciosa. Ele gira, encosta na biqueira de um pneu furado, recua com elegância e volta a flutuar no centro da água suja. Ele está me pedindo pra brincar. É como uma criança de plástico me dizendo: "Relaxa, Harry. Nada disso importa."

Ele foi usado, percebe? Alguém tomou três goles de um café requentado de garrafa térmica, reclamou do excesso de açúcar, amassou a borda com os dentes num gesto inconsciente de ansiedade e o jogou na calçada. E agora ali está ele: livre. Abdicou da própria utilidade. Atingiu o Nirvana do plástico descartável.

Nós passamos a vida inteira tentando construir impérios de papel, escrevendo dossiês em inglês, disputando dezessete moedas num painel de navegador... e aquele copo de café amassado, flutuando no óleo de motor às quatro da tarde de uma terça-feira, entendeu o sentido da existência muito melhor do que qualquer Ministro da Comunicação jamais vai entender.

É o momento mais bonito da minha semana. E a única coisa que eu consigo pensar é que eu devia ter pedido uma coxinha pra acompanhar o meu café.

VI. Congresso Novo, Caras Antigas


Eram vinte e dois sujeitos amontoados disputando onze cadeiras de couro sintético. Sentei no chão da galeria com um suquinho de caixa na mão, disposto a bancar o correspondente aplicado. Li exatamente dois panfletos de campanha antes de sentir a pálpebra pesar e concluir que a democracia representativa merecia a atenção de alguém com mais fé na humanidade e menos horas de sono acumuladas do que eu. Fica registrado o esforço, e fica registrada a derrota física.

Quando a poeira baixou e os carimbos secaram, o quadro na parede mostrou o /party/698d11a9378db6e98c4b83e2 levando a maior fatia: quatro cadeiras, sem sequer ter colocado a cara na corrida presidencial desta vez. É a sabedoria fria do burocrata pragmático. Para que queimar a sola do sapato no cargo mais visado do Palácio quando você pode dominar o balcão do Legislativo sem tomar chuva? Deixam o desgaste do Executivo para os outros enquanto o @689f9d8598f8c7f7c5753d80 e sua bancada seguram as rédeas da casa. O /party/6a5dc929d003de550179027c veio na cola com três vagas, trazendo o @6998fbf5abdf5405eddf98db, que empatou no topo dos votos com o próprio perucci, provando que trocar de legenda na véspera da eleição não tira o cheiro de gabinete veterano de ninguém. O /party/69ea671090550e833f714675 abocanhou duas, enquanto o /party/69ceb9b208fb389eb577bfa3 e o próprio PRB fecharam a conta com uma cadeira bem modesta cada.

Olhei para aquela plenária lá de cima e não vi surpresa nenhuma. É sempre a mesma turma revezando os mesmos cinzeiros desde que desembarquei por essas bandas.

Enquanto a bancada ajeitava os papéis, o Presidente recém-empossado abriu a pasta com uma "votação histórica" convocada para o dia dez. A ideia era reunir todos os chefes de partido e comandantes de Unidade Militar para bater o martelo sobre a política externa. Eu ainda estava no corredor quando o manifesto do @6a13f0490804c9936324204f caiu na minha mão, antes mesmo de eu conseguir ler o decreto oficial do Rafael. Li a autópsia antes do parto, como quem pega o resumo do filme na porta do cinema.

E o diabo é que a crítica dele não tinha uma vírgula de erro. Encostado no corrimão de ferro, li a denúncia: como as UMs pertencem aos próprios partidos, grupos grandes como o PRB e o PRONA acabavam acumulando múltiplos votos camuflados por trás da fachada do "um voto por liderança". Ele cobrou proporcionalidade, apontou a manobra e jogou a poeira para cima do próprio governo. Ver um sujeito peitar a cúpula do seu próprio país de peito aberto, sem capuz nem pseudônimo, foi a coisa mais viva que vi andar por aqueles corredores a semana inteira.

VII. Morte Térmica


Sentei na cadeira de plástico do comitê central do PRB perto das 1h da manhã. O silêncio daquele salão não era paz: era anestesia. A luz fluorescente no teto emitia um zumbido fúnebre e as mesas alinhadas, sem um único papel amassado ou cinza de cigarro no chão, davam a sensação de um necrotério recém-desinfetado. Foi encarando essa ordem impecável que a minha cabeça, na falta de qualquer atrito no mundo real, buscou refúgio na química.

[ENCICLOPÉDIA] – Entropia não é apenas um nome elegante para bagunça. Ela descreve, entre outras coisas, quantas configurações microscópicas podem produzir o mesmo estado visível. Em um sistema isolado, a energia tende a se dispersar até restarem cada vez menos diferenças capazes de realizar trabalho. O zero absoluto, -273,15 °C, é o limite inferior da temperatura; não é sinônimo automático de entropia zero.

Rolagem de Enciclopédia: 2d6+1. Resultado: 8. Sucesso.

[ELETROQUÍMICA] – Você ouviu a parte do calor e do atrito, garoto? Esquece o livro de física por um segundo! Sabe o que mais precisa de atrito e calor pra funcionar? O seu fígado! Uma dose dupla de conhaque vagabundo, o sangue fervendo e uma boa briga de botequim! Essa gente do partido tá congelando porque esqueceu como se queima combustível de verdade.

Rolagem de Eletroquímica: 2d6+2. Resultado: 11. Sucesso.

A química básica não ensina que tudo o que é vivo é caótico. Aquilo era apenas meu cérebro, perto da uma da manhã, tentando contrabandear ciência para dentro de uma metáfora partidária. O que ela ensina é que processos dependem de diferenças: de temperatura, pressão, concentração, qualquer gradiente que permita à matéria trocar energia e realizar trabalho. O atrito desgasta as superfícies, claro, mas a ausência completa de diferenças deixa pouca coisa capaz de sair do lugar.

Existe outro conceito chamado equilíbrio térmico. Ele ocorre quando dois corpos atingem a mesma temperatura e deixam de trocar calor de forma líquida. Isso não mata um sistema por definição. O pesadelo maior, a chamada morte térmica, seria um estado em que já não restasse nenhum gradiente de energia útil para sustentar processos. Nenhuma diferença aproveitável. Nenhum fluxo. Nenhum trabalho possível.

A comparação era imperfeita, mas a ficha caiu na minha cabeça com o peso de um bloco de gelo: o nosso partido havia atingido uma espécie de morte térmica política. A cúpula passou semanas espanando a desordem, expurgando os insatisfeitos e disciplinando cada molécula social até o ambiente ficar limpo, seguro e rigorosamente uniforme. Não erradicaram a entropia do universo; erradicaram as diferenças internas capazes de produzir conversa, disputa e movimento. Hoje o chat não tem briga, não tem candidatura de piada, não tem sobressalto. Conseguiram a paz dos cemitérios. E agora sentam sobre o cadáver gelado do partido, orgulhosos de como o velório está silencioso, limpo e organizado.

VIII. A Pré-História do Ódio e Fracasso


Enquanto o presente insistia em mandar fumaça pra minha janela, decidi fazer o oposto do que qualquer correspondente decente faria: em vez de seguir a pista fresca, dei meia-volta. Fui arrastar as botas no arquivo morto, achando que encontraria uma explicação simples de cartório. Encontrei um corredor muito mais fundo, cheirando a mofo antigo e rancor estocado.

Foi o Skindreds quem, sem querer, soprou a poeira da pista que eu perseguia desde a segunda edição. A tal sigla "RR", espalhada como pixação pelas ruas, finalmente ganhou nome e sobrenome: Rival Regions. Um geogame antigo, mecânico e impiedoso, onde a RED, a Mafia e o próprio PRONA já trocavam caneladas havia mais de uma década. A guerra que eu cubro hoje, os manifestos inflamados, o expurgo dos insatisfeitos e a Guerra Mundial Lusófona não nasceram nesta praia. Só reencarnaram aqui, com código novo e a mesma mágoa podre por baixo.

[CONCEITUALIZAÇÃO] – O software muda, os servidores fecham, mas o ressentimento humano é a única matéria-prima imortável. Eles não trouxeram moedas do outro jogo: trouxeram os fantasmas.

O próprio Skindreds me contou essa história enquanto eu ainda estava na Guiné-Bissau. Entrou no War Era há quatro meses, caiu numa divisão que juntava Mafia, RED e INSS debaixo do mesmo teto e virou soldado da RED mais por erro de distribuição de vaga do que por ideologia. Foi ele quem negociou a posse da Guiné-Bissau com os antigos donos, tentando cavar um canto longe do Brasil, da treta original e de tudo que já estava velho antes de eu sequer pensar em vir parar aqui. Uma diáspora tentando fugir de uma guerra fantasma e conseguindo apenas mudar a briga de continente.

Lembro de ficar ali, olhando para o fundo do meu copo, sem chegar a conclusão nenhuma. Talvez seja essa a herança que os jogos mortos deixam para os vivos: não as regras, mas a birra de gente que briga há tanto tempo que já nem lembra a primeira ofensa, só o hábito de continuar batendo a porta.

E por falar em gente disposta a mudar de mapa por causa de briga antiga, registro aqui que recebi meu próprio convite de travessia. Em uma conversa com o dom_joao, ele me convidou para passar uma temporada de intercâmbio cultural na Guiné-Bissau. Uma oportunidade de conhecer a rotina de Bissau de perto, sem contrato nem algema. Pondero a oferta encostado na janela. Um bom investigador precisa manter a mala pronta. Se eu aceitar, talvez este que vos fala esteja prestes a virar personagem da própria seção de causos antigos algum dia.

IX. O Dilema do Satélite (ou: A Teoria do Telegram Sovereign)


O Skindreds cismou de mudar seu nome no registro oficial para @69c6b486bf8913d0ca29ad92 no meio da apuração. Ignorei a troca no meu fichário. Mudar de identidade enquanto a investigação está correndo é luxo que só concedo para suspeitos. Para mim, ele continua sendo o mesmo sujeito com aquele traje de lona sintética.

Ele resolveu fazer a pergunta mais perigosa que um cidadão pode soprar no guichê da Moderação: afinal de contas, como é que funcionam as regras de vocês?

A dúvida era simples. Guiné-Bissau, um país com governo próprio, constituição de papel de pão e um histórico de odiar a administração brasileira, podia ser considerada um proxy do Brasil pelas leis do servidor?

A resposta dos juízes supremos veio com a mesma frieza que o coitado do @69d57ff3deb8eba108b33906 encontrou: sim.

Para os burocratas do andar de cima, pouco importava que os dois países tivessem alianças opostas ou que o Congresso do Brasil estivesse, naquele exato segundo, aprovando por sete votos a zero uma declaração de guerra direta contra Bissau. Na cabeça da Moderação, a Guiné-Bissau era um satélite brasileiro. Um protetorado bombardeado pela própria metrópole, num caso inédito de sadomasoquismo patriótico, onde o país declara guerra a si mesmo para garantir que a colônia continue obediente.

[RACIOCÍNIO LÓGICO] – A jurisprudência do tribunal é uma obra-prima da demência. Se você declara guerra ao seu próprio proxy, isso é diplomacia agressiva, expansão colonial ou apenas um fetiche burocrático em escala continental?

Rolagem de Raciocínio Lógico: 2d6+2. Resultado: 10. Sucesso.

O carimbo de proxy não é só uma mancha na ficha. No código do servidor, ser rotulado como colônia significa ter contas bancárias congeladas, ser proibido de pagar aluguel de territórios estratégicos e viver sob a ameaça de ser jogado numa cela por lavagem de dinheiro digital. É a asfixia financeira assinada por um algoritmo sem rosto.

Pressionado pela máquina, Skindreds pregou na porta da prefeitura o manifesto Guiné-Bissau Segue Seu Próprio Caminho. Explicou o óbvio: a RED Africa não atravessou o Atlântico para virar entreposto do Brasil, mas porque a convivência interna tinha virado uma briga de faca. E anexou a prova do crime: o print do Congresso brasileiro votando em peso pela guerra contra Bissau. Se Bissau era um satélite nosso, o governo simplesmente esqueceu de avisar aos seus próprios deputados.

Na calçada, o bate-boca tomou conta do quarteirão. O Raiden_Frost mandou a sua sentença com a autoridade de quem resolve briga no balcão da sinuca: falam português, são brasileiros e estão em outro mapa, logo são proxy, cravando o argumento com o desdém de quem dá as costas. O @68b0e3029cbad7447ba92d24, do alto do seu posto no Executivo, apresentou um conceito inédito para a ciência política: Bissau é proxy porque o grupo deles administra uma sala de chat no Telegram para brasileiros. A soberania de um país inteiro anulada por causa de um canal de aplicativo fora do jogo.

O dom_joao respondeu à tese do Igor chamando o sujeito de soca-fofo no meio da praça e mandando ele voltar para o seu canto. No meio dos estilhaços, sobrou até para o @69e3c9f5652519adc97975db, nosso homem no exílio canadense, que encostou na amurada só para resmungar que tinha sido expulso do Discord do Brasil de graça, sem ter nada a ver com o tiroteio.

Com a rua pegando fogo, fui atrás do Skindreds. Esperava encontrar o cérebro de uma conspiração internacional, o homem de escafandro de oxigênio no calor mormacento da África coordenando um golpe de estado.

Encontrei apenas um sujeito cansado, com a testa apoiada na barriga.

Ele me explicou o drama sem nenhuma pompa heroica: a briga toda contra a Moderação não tinha nada a ver com o Brasil, com o Igor ou com o chat de Telegram. Tinha a ver com aluguel. Eles queriam pagar pelo direito de usar refinarias de aliados e precisavam movimentar dinheiro sem tomar multa por fraude do sistema. Enquanto a diplomacia brasileira discursava sobre soberania, traição e redes sociais, a prioridade real de Bissau era conseguir pagar a fatura do mês e ir para Cabo Verde trocar tiro com a Venezuela.

X. Os Noventa Dias da Imperatriz


Quando o Gabriel se aproximou da minha mesa e me entregou aquele panfleto amarfanhado, cheirando a tinta fresca e umidade de sarjeta, confesso que pisquei duas vezes. Olhei o cabeçalho impresso em letras góticas: Commonwealth. Na minha cabeça corroída por anos de vício em ficção barata e álcool vagabundo, a primeira coisa que me veio à mente não foi diplomacia de servidor, mas o deserto radioativo, necróticos, mutantes e armaduras de aço patrulhando ruínas nucleares.

[CONCEITUALIZAÇÃO] – A poeira atômica, o Vault-Boy sorrindo no meio dos destroços e a promessa de reconstruir a civilização sobre as cinzas de uma bomba que caiu há duzentos anos.

[RACIOCÍNIO LÓGICO] – Você está num servidor de navegador de madrugada, Harry. Não tem supermutante aqui. Só aristocracia de papelão.

Rolagem de Conceitualização: 2d6+1. Resultado: 9. Sucesso.

Guardei a ilusão atômica no bolso e passei os olhos pelo papel. A história que se desenrolava ali era bem mais terrena, mas não menos extravagante.

O panfleto trazia a assinatura de @6849d43afb7b5c0aab88a4e0, anunciando um golpe de estado com direito a toda a pompa monárquica que dez pixels conseguem sustentar. O Parlamento da /mu/68a1cba9ae3c1ce846ed5553 simplesmente suspendeu as próprias eleições, trancou as portas do palácio e centralizou todo o poder executivo, legislativo e espiritual nas mãos da própria Alice, agora atendendo pela alcunha institucional de Caesar. Para coroar o espetáculo, oficializaram a fusão de casas nobres sob o nome de Casa Bragança-Ohio e lançaram um plano de governo com uma promessa modesta: realizar noventa dias de progresso em apenas sete.

Com a coroa de latão ajustada na cabeça, o Caesar Alice disparou um ultimato acusando o governo brasileiro de agir com tirania e proibir sozinho a entrada da Commonwealth na /alliance/6a2981ad131983aa8445864d.

Decidi seguir o rastro de papel. Fui atrás dos pedaços dessa história nos corredores escuros do Itamaraty, crente de que encontraria uma disputa ideológica profunda. Encontrei o conselheiro perucci encostado numa coluna de concreto do saguão, tragando um cigarro e segurando a prova do crime no bolso.

Ele me mostrou a imagem. A justificativa do veto brasileiro não tinha nada de geopolítica sofisticada, era autopreservação elementar: o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Timor-Leste, @69ef8c69511e3ddda474a6b7, tinha prometido abertamente que iria wipar o Brasil do mapa assim que assumisse o título de Caesar. Fica difícil carimbar o passaporte de um vizinho quando o diplomata dele avisa em praça pública que a primeira meta da gestão é incendiar a sua casa.

Mas a história não parava ali. A imperatriz não aceitou o 'não' passivamente. Alice publicou um novo dossiê, traduzido para o inglês com o rigor de uma auditoria fiscal, expondo a nossa diplomacia com as calças na mão. O documento listava nada menos que sete justificativas diferentes, conflitantes e mutantes dadas pelos representantes do Brasil ao longo do processo. Num dia o problema era a ameaça do Timor, no outro era falta de consenso, no seguinte era um desacordo de prazos: cada gabinete brasileiro improvisando uma desculpa nova conforme a dor de cabeça da quinta-feira exigia.

Contemplei aqueles papéis com o cinismo de quem já viu de tudo nesta apuração. Imperatrizes sem parlamento prometendo milagres em uma semana, ameaças de exterminar nações vizinhas no chat e sete carimbos diferentes para a mesma negativa de guichê. O mundo lá fora pode ser complexo, mas o nosso servidor consegue condensar séculos de conspiração palaciana na mesma tarde. Não cheguei a verificar se aqueles sete dias foram suficientes para entregar a promessa, mas, se a matemática da aristocracia estiver errada, ainda sobram oitenta e três.

XI. A Psicanálise do Boteco (ou: O Novo Ministro)


Se você encarar a mancha de umidade no teto de um botequim por tempo suficiente, percebe que a mente humana não é um santuário. É um porão abafado com goteira onde três sujeitos visivelmente alterados brigam pela última coxinha da estufa (sim, eu queria uma coxinha). O primeiro é o bicho bruto, a fome pura de chutar a porta. O segundo é o fiscal de postura, vestindo terno puído e cobrando bons modos. O terceiro é o coitado do meio, tentando não levar um soco de nenhum dos dois enquanto decide se vai embora.

[PSICOLOGIA DE SARJETA] – Freud passou a vida escrevendo volumes teóricos para explicar esse choque. No nosso servidor, o sujeito nem precisa de divã: basta descer aos comentários e assistir aos demônios do ego marchando sem sapato.

Rolagem de Psicologia de Sarjeta: 2d6+0. Resultado: 9. Sucesso.

E foi exatamente esse consultório de psicanálise ao ar livre que se instalou no meio da praça pública esta semana.

O Marx_Jorge_Jr, engolindo a fumaça de edições inteiras de silêncio, resolveu abrir o peito. Pregou na porta da prefeitura um tratado de cinco páginas intitulado Manual de Sobrevivência do Novato. O texto era uma autópsia inflamada: acusava a cúpula do governo de transformar a política brasileira num feudo gerido por egos carentes, denunciou julgamentos sumários conduzidos de madrugada nos porões do Discord e anunciou sua partida definitiva rumo ao exílio em busca de uma nação onde pudesse jogar sem carregar o peso da oligarquia local.

As reações não demoraram a transformar a acusação num banho de descarrego.

O cidadão Emerson puxou o cachimbo de Sigmund Freud do bolso interno do casaco para diagnosticar o autor diante da multidão. Explicou com gravidade acadêmica que o problema do Marx_Jorge_Jr era um conflito insanável entre o seu Id e o seu Superego, acusando o sujeito de dar ouvidos aos impulsos mais primitivos em vez de se submeter à disciplina da armadura cívica. E encerrou a sessão com uma máxima digna de para-choque de caminhão: cravou que preferia ser reserva no Brasil a ser titular no Zimbábue.

O @6a064ba2a072838902047d27 não deixou barato. Respondeu com um manifesto assinado com o seu próprio nome civil (para dar o peso de uma certidão de óbito moral ao texto), cravando a sentença definitiva sobre a nossa fauna digital: o pior do Brasil é o brasileiro. Defendeu a legitimidade das sessões de madrugada convocadas com quatro participantes e argumentou que qualquer acusação de autoritarismo não passava de projeção psicológica de quem não aguenta o rigor do rito partidário.

E como a nossa política tem um senso de humor impecável, o Presidente Rafael coroou o espetáculo nomeando o próprio GiuGiu para o Ministério da Comunicação.

Pousei a minha xícara no balcão e contemplei aquele decreto. A escolha foi cirúrgica. Nada transmite mais diplomacia, transparência e acolhimento institucional do que entregar o microfone oficial do Estado ao sujeito que acabou de publicar um ensaio explicando por que odeia a própria população.

XII. A Blitzkrieg da Cobra Fumou


Pela primeira vez em três semanas, cometi o erro crasso de pegar no sono. Estava afundado num colchão de mola furada, num quarto cheirando a cachorro molhado, quando o alarme do rádio disparou às três da manhã. Não era alarme comum: era o ruído seco e metálico das sirenes de emergência do Estado. O comunicado oficial do Presidente Rafael veio no mesmo rádio, com a urgência de um decreto do Juízo Final: o Brasil estava oficialmente em guerra.

Ajeitei o sobretudo por cima do pijama, cocei a vista embaçada e preparei a minha cabeça para o óbvio. Achei que a nossa frota estivesse, naquele exato segundo, desembarcando no cais de Bissau para resolver a briga do aluguel na bala.

[IMPÉRIO INTERIOR] – Você achou que a tempestade viria do Atlântico Sul, do porto de Bissau. Mas a bússola do nosso Executivo é um ponteiro desgovernado girando num prato de sopa frio.

Rolagem de Império Interior: 2d6+0. Resultado: 3. Fracasso.

Errado. Errado por alguns milhares de milhas marítimas. A declaração contra Bissau continuava aprovada no arquivo, mas sem desembarque. O alvo militar daquela madrugada não era a Guiné-Bissau: era a Libéria.

A manobra diplomática tinha a sutileza de um tijolo atirado na janela de uma padaria. O discurso oficial falava em buscar matérias-primas e expandir as nossas fronteiras no Atlântico, mas bastava olhar para o organograma de Monrovia para entender o verdadeiro motivo: a Libéria era dominada por argentinos (isso já era questão suficiente). A cúpula não marchou para a África por causa de minério ou de diplomacia; marchou porque a tentação de arrumar uma briga de rua com os vizinhos de continente falou mais alto do que qualquer relatório do Ministério do Planejamento.

E a resposta veio a galope. A Argentina não aceitou o entrevero na praia e abriu fogo direto contra o nosso território. Enquanto os generais de gabinete tentavam entender o mapa da costa africana, o Suriname decidiu que também queria uma fatia da confusão e marchou sobre Belém. A nossa fronteira norte virou um balcão de liquidação sem fiscalização, com tropas inimigas cruzando a lama para tomar a cidade.

Apesar do caos de ordens desencontradas no rádio, a nossa infantaria conseguiu fincar o pé na praia e tomar dois territórios inteiros na Libéria. Dois pedaços de terra abafada, conquistados à custa de marcha noturna, coturno furado e munição gasta.

Mas a verdadeira sombra que paira sobre as trincheiras não é a Argentina, nem os batalhões surinameses às portas de Belém. É o fantasma que todo mundo sussurra na calçada, mas ninguém quer encarar de frente: a França. O monstro adormecido da geopolítica internacional continua ali, de prontidão no mapa, esperando a oportunidade exata para entrar na dança. Fica o pavor no ar de que esse entrevero africano seja apenas o tapete vermelho estendido para um rendez-vous indigesto com as tropas francesas. Se a Marselhesa tocar na praia de Monrovia, não tem ECO-MODE nem oração de gabinete que salve o nosso estopim.

XIII. O Último Inventário (ou: A Anatomia da Deserção)


Já era tarde, e eu ainda estava sentado diante da minha escrivaninha quando percebi o que minhas mãos faziam. Não houve pensamento prévio, decisão solene formulada no papel ou estalo consciente de revolta. Eu estava, inconscientemente, indo embora das duas estruturas que haviam me acolhido: o PRB, como partido, e o /mu/69f47b03270cd506d26a175d, como unidade militar. Não alimentava ressentimento contra nenhuma das duas. Pelo contrário: tinham sido minhas primeiras casas neste chão hostil, os lugares onde desembarquei sem tostão no bolso e fui recebido com uma generosidade que não se encontra em qualquer lugar. Guardava, e ainda guardo, um afeto quase filial por ambas. Mas a mente humana é um mecanismo estranho, e o meu subconsciente, saturado do ar de alvejante daquele salão, já havia decretado que era hora de buscar outros ares antes mesmo que a razão pudesse criar alguma desculpa para ficar.

Minhas falanges moviam-se de forma quase autômata, recolhendo os objetos sobre o tampo de madeira, um por um.

Primeiro veio o grampeador de latão pesado, que não funcionava bem por conta da mola emperrada. Depois, o frasco de vidro amarelado com o resto de tinta nanquim preta, o pequeno bloco de notas de capa de couro cujas cantoneiras estavam gastas e manchadas de gordura de pastel, um pacote de cigarros baratos ainda lacrado e, por fim, o meu fichário. Guardei tudo no fundo da valise de couro surrado.

Sobre a mesa nua, restara apenas o monstro: uma máquina de escrever mecânica de vinte quilos, forjada em ferro fundido e esmaltada num cinza-chumbo industrial, típica da engenharia pré-colapso. Sua aparência… era um cruzamento bizarro entre uma prensa hidráulica e um inseto empalhado. Não era um instrumento de escrita, mas um pequeno acelerador de partículas. As teclas eram discos côncavos de baquelite amarelada, assentados sobre um labirinto exposto de hastes articuladas, molas helicoidais e engrenagens de bronze que lembravam a anatomia interna de um relógio tuberculoso. Cada martelada causava um estampido seco, quase igual a um percussor de um revólver. Cravava as letras na celulose como se estivesse lavrando sentenças de morte.

Puxei uma folha de papel do maço, ajustei o rolo de borracha gasta e, com o barulho seco e metálico das hastes batendo contra a fita impregnada de tinta, datilografei uma última nota. Não era uma piada, nem algo para o fichário. Eram apenas três frases curtas:

“Estou passando aqui para agradecer por ter me acolhido no GRB. Entretanto, acredito que essa vai ser a minha deixa. Contudo, mais uma vez, obrigado.”

Retirei a folha do carretel, dobrei-a cuidadosamente em quatro partes e guardei-a no bolso interno do meu sobretudo.

Levantei-me da cadeira. O silêncio do cômodo era absoluto, quebrado apenas pelo chiado suave do ventilador de teto. Estiquei os braços e as pernas e desliguei o aparelho, observando as três pás de ferro diminuírem a rotação devagar, até pararem completamente. Esperei alguns segundos no escuro para conferir se minha gravata não tinha ficado presa em uma das hastes, apenas um hábito ridículo. Não estava. Ajustei o nó no pescoço, pousei a mão na maçaneta de bronze e abri a porta.

O contraste foi imediato. O ar morno e abafado da minha sala foi subitamente cortado pelo ar gélido do salão principal do prédio e pelo brilho cru e assustador das lâmpadas fluorescentes.

Antes de dar o primeiro passo no corredor, virei-me sobre os calcanhares para uma última inspeção naquele que, a partir daquele momento, seria meu antigo gabinete. A partir da soleira, o cômodo parecia uma maquete abandonada por um arquiteto cansado: a escrivaninha de madeira rústica perfeitamente centralizada contra a parede cinzenta e impregnada pela fuligem do tempo; a máquina de escrever descansando bem no meio do tampo; a janela alta e estreita por onde a luz do sol já não entrava há algumas décadas; o chão de taco encardido pelas solas das centenas de sapatos que por ali passaram; e, no canto direito da madeira, a marca circular escura, talhada pelo calor acumulado das dezenas de xícaras de café que apoiei naquele mesmo ponto ao longo de meses. Fiquei parado ali, olhando aquela cena atônito, sem mover um músculo. Quase como um agradecimento por todos os momentos.

Estiquei a mão, tateei o espelho do interruptor na parede e apaguei a luz. O quarto ruiu na escuridão.

Caminhei a passos lentos pelo corredor de granito estragado. O prédio do PRB cheirava a pinho sol, cera barata, papelão molhado e àquela umidade rançosa e fria que se acumula nos cantos onde a iluminação natural nunca conheceu. Passei por algumas portas fechadas e escutei um pequeno burburinho vindo de uma sala distante no fim do andar (o som abafado de dois burocratas discutindo um memorando de madrugada e rindo, alheios ao mundo lá fora).

Dobrei à esquerda e cheguei à porta da sala do @69d12ca4809a66ba7d0b8d30. Estava entreaberta. Empurrei a madeira com a ponta dos dedos e entrei.

O gabinete do meu comandante exalava aquele abandono melancólico dos lugares cujos donos partiram sem previsão de volta. A mesa dele estava coberta por uma película fina de poeira. No cinzeiro de porcelana, uma xícara esquecida continha um resto de café que já havia se transformado num pequeno ecossistema de fungos esverdeados e aveludados. Fazia dias que o Mykael não cruzava a catraca do servidor. Puxei a carta dobrada do bolso do meu sobretudo e a depositei sobre o carro da máquina de escrever dele, prendendo o papel sob as teclas para que fosse a primeira coisa que seus olhos vissem quando pisasse ali novamente.

Saí da sala sem fazer barulho e segui para a recepção.

A porta de madeira compensada da sede não rangeu ao abrir. A fechadura, gasta pelo manuseio de centenas de burocratas que passaram por ali antes de mim, cedeu com um estalo seco, suave, quase imperceptível. A recepção estava vazia, suja como de praxe, iluminada apenas pelo brilho esverdeado e hipnótico do relógio de parede, que marcava quatro e cinquenta da manhã. Ninguém me viu sair. Não houve protestos, chamadas de emergência pelo rádio ou sequer a formalidade burocrática de um carimbo de baixa. Eu não queria celebrações, aplausos ou um comício de despedida. Não por vergonha, mas por saber que certas partidas só devem ocorrer em absoluto silêncio.

Girei a catraca de ferro e pisei na calçada.

A transição ambiental foi brutal. O ar da rua não guardava o frio artificial do salão do PRB; era um mormaço pesado, denso, saturado de umidade e maresia quente.

A cidade ao meu redor parecia uma carcaça adormecida e úmida após uma febre violenta. Pela primeira vez na noite, senti no ar a atmosfera estranha e eletrizada que cobria o país: um misto azedo de euforia militar e melancolia de gabinete. A milhares de quilômetros dali, no litoral africano, a nossa infantaria marchava na Blitzkrieg contra a Libéria dominada por argentinos, enquanto os batalhões do Suriname cruzavam a fronteira de Belém. O eco dessa guerra distante flutuava sobre o asfalto silencioso da capital como uma vibração invisível, interrompida apenas pelo chiado elétrico dos transformadores nos postes e pelo ganido distante de alguns vira-latas.

Caminhei por mais de meia hora sem cruzar com uma única alma penada. As fachadas dos prédios de apartamentos erguiam-se como penhascos pretos e insondáveis contra o céu cor de chumbo da madrugada.

À medida que marchava, senti as articulações estalarem a cada passada. Uma dor aguda começou a latejar atrás dos olhos e na boca do estômago. Minha pele estava fria, mas o pescoço queimava sob um suor pegajoso. Pela primeira vez desde que comecei este fichário, a ficha caiu de verdade: aquela fraqueza crônica não era apenas ressaca acumulada de três edições nem exaustão mecânica de um escritor de sarjeta. Era uma febre real, cozinhando meu sangue por dentro enquanto eu me ocupava com outras coisas.

Foi com a vista embaçada por essa febre crescente que alcancei o cruzamento da avenida principal. Lá na frente, a iluminação fria, branca e cortante de um posto de gasolina 24 horas brilhava na escuridão como uma gaiola de vidro reluzente construída no meio de uma floresta densa e esquecida.

Aproximei-me do estabelecimento e entrei no anexo da farmácia. O balcão de fórmica amarelada estava deserto até que um atendente pálido, com olheiras tão profundas que pareciam cavadas a faca, surgiu do depósito nos fundos. Sua voz era tão arrastada que tive dificuldade para entender. Pedi uma caixa dos analgésicos mais fortes da prateleira, uma cartela de antibióticos de amplo espectro e qualquer outra coisa com um nome químico comprido o bastante para inspirar confiança. Não apresentei receita. Ele também não pediu. Existem horas da madrugada em que a legislação sanitária dorme junto com o resto da República. O sujeito me encarou por dois segundos longos, avaliou o estado lastimável do meu ser, jogou as caixas sobre o balcão e aceitou as moedas amassadas do fundo do meu bolso como se estivéssemos concluindo um pacto entre dois homens que já tinham desistido de fazer perguntas.

Na loja de conveniência ao lado, comprei uma coxinha que descansava há dias sob a luz amarela da estufa e uma lata de refrigerante trincando de gelada.

Saí do estabelecimento e encostei as costas na parede externa de azulejos brancos do posto. O vento da madrugada soprava com mais força, levantando folhas secas, pedaços de jornal velho e a poeira fina do asfalto. Ali mesmo, sob a luz branca que deixava todo mundo com aparência de cadáver recém-lavado, destaquei dois comprimidos de caixas diferentes sem consultar dosagem, contraindicação ou sequer a ordem correta dos acontecimentos. Dei uma mordida na coxinha, usei o refrigerante para engolir o coquetel e rezei para que a química farmacêutica soubesse improvisar melhor do que eu. O procedimento tinha o rigor científico de uma eleição partidária convocada às três da manhã, mas pelo menos alguma coisa dentro de mim finalmente parou de gritar.

Ainda encostado na parede de azulejos brancos do posto, ainda mastigando a massa oleosa da coxinha e sentindo o gelado do refrigerante anestesiar minha garganta febril, ouvi o ronco grave de um motor diesel se aproximando. Um caminhão militar com a lataria coberta de poeira vermelha e marcas de óleo parou rente às bombas de combustível. Era um veículo de transporte da /mu/69e96f7f084baacb2657bf35, voltando de algum despacho logístico na calada da noite. Na caçamba aberta, três soldados com fardas amarrotadas riam alto de alguma piada interna, exibindo um entusiasmo bizarro, quase incongruente com a podridão daquela hora.

Fiquei observando aquela cena enquanto o frentista encaixava a mangueira no tanque. O nome da unidade me trouxe à mente o CDR. O @69c9602380c8eecf7f0e24ce, o @69cc112723fffdf392365cc5, a @69c6d64c5f22681ea57ee6ef, o @6a13f0490804c9936324204f... toda aquela fauna veterana e desajustada estava abrigada sob o mesmo teto. Pensei comigo mesmo: por que diabos não tentar? Puxei o rádio portátil do bolso interno do sobretudo, sintonizei a frequência de recrutamento do partido e da unidade e transmiti uma solicitação tímida, como quem joga uma garrafa no mar sem qualquer pretensão de resposta ou expectativa de acolhimento.

O caminhão deu a partida num solavanco, soltou uma nuvem de fumaça preta que ardeu nos meus olhos e desapareceu na escuridão da avenida. Terminei o refrigerante, engoli o último pedaço da coxinha e retomei a marcha em direção ao centro deserto da cidade.

No meio da calçada rachada, parei para observar um besouro cascudo que tentava, com uma obstinação comovente, escalar uma tampa enferrujada de garrafa de cerveja. Ele subia três milímetros, escorregava na curva de metal, caía de costas sobre o concreto, agitava as seis patas num frenesi desesperado no ar, desvirava-se com um estalo seco e começava tudo de novo. A insistência daquele bicho na sua tarefa inútil tinha algo de profundamente familiar. A vida, afinal de contas, é apenas a arte de insistir na mesma tampa enferrujada até conseguir ou desistir.

Deixei o inseto na sua epopeia particular e segui em frente. Duas esquinas depois, deparei-me com uma edificação antiga de tijolos aparentes com uma placa de ferro batido: a sede terrestre da Arcanjos. Ao lado do portão de entrada, um cartaz amarelado e roído pela umidade das chuvas teimava em permanecer colado no reboco. Dava para ler, com algum esforço visual, a proclamação patriótica:

"Procurando uma UM forte de verdade? Venha para a Arcanjos, uma UM nível máximo focada não apenas em evolução no jogo, mas também no desenvolvimento de cada membro como indivíduo, criando uma comunidade unida e única dentro do War Era. Faça parte da Arcanjos!"

mpurrei a porta de vidro e entrei na recepção. O saguão tinha o mesmo cheiro de café requentado e lâmpada quente de todas as repartições deste mundo. No banco de madeira junto ao balcão, outro sujeito aguardava a sua vez para preencher a ficha de alistamento. Tinha um porte estranho e vestia uma camisa oficial da seleção brasileira com o nome e o número de Lionel Messi estampados nas costas, um daqueles anacronismos visuais que a mente de um homem febril aprende a aceitar sem fazer perguntas.

Preenchi o formulário no livro de registro da entrada. Minha cabeça pesava uma tonelada e a febre começava a nublar a borda da visão. Sentei-me em uma das poltronas de corvim rasgado da recepção, recostei a nuca na parede fria e apaguei.

Não sei quantas horas se passaram. Fui acordado por um toque suave no ombro. Abri os olhos com esforço e dei de cara com o @69d5aafd60a642eabe274656, um dos comandantes da Arcanjos. Ele falava com uma delicadeza quase pastoral, a voz mansa de um médico dando uma notícia difícil. Explicou que a unidade estava rigorosamente lotada, sem nenhuma vaga disponível no quadro de infantaria, mas pediu que eu não me preocupasse: eles mantinham uma segunda unidade, a /mu/69f3aad14456236fc8320a90, onde eu seria muito bem recebido pelos oficiais.

Eu já abria a boca para agradecer a gentileza e aceitar meu destino na segunda unidade quando a recepcionista gritou do fundo do corredor, avisando que duas vagas novas tinham acabado de abrir no sistema e que eu havia sido aceito na unidade titular.

Olhei para o M3G4BYTE. O homem parecia tão genuinamente atordoado quanto eu diante daquela reviravolta burocrática. Provavelmente dois soldados da nossa linha de frente tinham acabado de virar adubo na praia da Libéria, abrindo espaço imediatamente. Ou tinham apenas mudado de unidade, saído da Unidade Militar ou apertado o botão errado. A primeira hipótese é o que tem mais valor literário, e na qual eu acredito. O comandante deu de ombros, esboçou um meio-sorriso desconcertado e apenas soltou:

"Então... seja bem-vindo."

Mal cruzei a porta de saída quando o rádio no meu bolso apitou com um zumbido seco: a minha solicitação ao CDR também havia sido aceita pela executiva do partido.

Caminhei até o comitê central do CDR ainda sob a luz fosca da madrugada. Ao empurrar as portas duplas, fui engolido por um tipo de caos muito diferente: era uma entropia viva, coordenada e febril. Numa das pontas do salão, oficiais debruçavam-se sobre mapas estratégicos berrando atualizações sobre os desembarques na África e as escaramuças com o Suriname e a Argentina; na outra, membros da executiva discutiam aos sussurros a catalogação de obras e a compra de prateleiras para a nova Biblioteca Pública que o partido estava erguendo. Uma mistura surreal de estado de sítio e feira literária comunitária.

Fui recebido com saudações calorosas, apertos de mão sinceros e canecas de café fresco no meio daquela bagunça organizada. Fica aqui o meu agradecimento comedido e honesto pelo acolhimento no meio do tiroteio. Acomodei a valise num canto da sala e deixei o sobretudo cair sobre o encosto de uma cadeira. Ninguém pediu explicações, currículo, autópsia ideológica ou certidão negativa de ressentimentos. Deram espaço para que eu respirasse. Fiquei ali por algum tempo, quieto, ouvindo as vozes atravessarem o salão. A fita da máquina de escrever continuava rodando dentro da valise, mas, pela primeira vez naquela madrugada, não tive pressa de colocar outra folha no rolo.

Encerramento


O café que me deram no CDR ainda soltava uma fumaça fina quando abri o fichário sobre a mesa nova. A capa de couro estava empenada pela umidade, as folhas internas cheiravam a tabaco velho e algumas páginas carregavam manchas cuja origem eu preferia não investigar. Passei o polegar pela borda do papel. Três edições. Pareciam muito mais pesadas ali, empilhadas, do que quando existiam apenas como abas abertas no navegador.

Do lado de fora daquele salão, nada havia terminado. Os generais ainda surtavam com a sombra da França, o PRB seguia no seu velório impecavelmente limpo, o Timor-Leste continuava barrado no guichê e outra guerra, que finalmente estourara na África, provava ser exatamente a bagunça que a gente previa. A geopolítica de pixels permanecia sem solução. Provavelmente permaneceria assim depois que todos nós virássemos nomes cinzentos numa lista de inativos.

Pousei os dedos nas teclas. Bastava escrever duas ou três frases bonitas, agradecer, fechar a tampa e fingir que conclusões obedecem ao mesmo expediente das repartições. A minha mão chegou a avançar sobre o papel.

[VOLIÇÃO] – Termine. Você chegou até aqui. Escreva a palavra fim antes que apareça outra guerra, outro manifesto ou uma candidatura de brincadeira.

[EMPATIA] – Não ainda. Você passou três edições falando. Fique quieto por um minuto e escute o que ficou no cômodo.

Rolagem de Empatia: 2d6+1. Resultado: 10. Sucesso.

Então obedeci. Afastei as mãos da máquina e escutei. Havia o tilintar de uma colher contra a borda de uma caneca, o arrastar de uma cadeira, alguém discutindo a posição de uma estante enquanto outro sujeito, a poucos metros dali, atualizava um mapa de guerra. Mais ao fundo, uma risada atravessou o salão e morreu devagar no teto alto. Nenhum daqueles sons tinha importância histórica. Juntos, porém, formavam alguma coisa parecida com vida.

Na primeira edição, eu ainda era o homem que chegara do Reddit movido por patriotismo barato e falta absoluta de planos para a tarde. Clicava em tudo, terminava as batalhas na posição 473, comia dois pães e me orgulhava por não ser o último. Eu me chamava de fantasma na máquina porque parecia melhor do que admitir que ainda não conhecia ninguém. Observava todos de longe, julgava em silêncio e tratava a mosca no vidro como o único acontecimento digno de nota.

Na segunda, os nomes começaram a ganhar voz. O guia ignorado do Lamine voltou para me assombrar. A Serena me ensinou a organizar o texto e foi uma das primeiras pessoas a dizer que eu devia continuar. O PenDragon, suposto inimigo da pátria, respondeu com mais educação do que muito aliado e ainda me deu licença para fazer piada. Manifestos, xingamentos, pactos e velhos rancores de outros jogos entraram pelas frestas. Eu, que jurava assistir a tudo com dois pés cômicos atrás, acabei vestindo a camisa do partido e entrando numa briga que ninguém tinha me chamado para comprar. A mosca virou borboleta porque eu também precisava acreditar que estava diante de alguma coisa enorme.

Na terceira, sentei diante da folha convencido de que a fórmula tinha secado. As frases vinham com o cheiro de frases antigas. As piadas pareciam retornar usando bigode falso. Enquanto eu tentava esconder a repetição, o partido ao meu redor alcançava aquela paz impecável dos lugares onde já não existe diferença suficiente para produzir movimento. Foi só quando minhas mãos começaram a guardar os objetos antes que a minha cabeça entendesse o motivo que percebi: o caso não estava pedindo uma conclusão sobre o mundo. Estava pedindo que eu admitisse que já não cabia na mesma sala.

Olhei para a valise no canto. Dentro dela estavam o grampeador defeituoso, o bloco engordurado de pastel, os cigarros, o fichário e todas as pequenas provas de que eu realmente estivera ali. Não saí do PRB e do GRB porque me trataram mal. Talvez isso tornasse a partida mais difícil de explicar. Saí porque carinho e pertencimento não são exatamente a mesma coisa, e porque às vezes permanecer por gratidão é apenas uma forma mais educada de congelar. Algumas portas precisam ser fechadas sem que ninguém do outro lado vire vilão.

Foi só então, olhando para aquelas páginas sob o efeito de uma combinação farmacológica escolhida com critérios que fariam um médico abandonar a profissão, que entendi algo que devia ser óbvio desde o início: a mosca nunca foi um acontecimento único. Na primeira edição, ela era o faxineiro batendo contra o vidro de um comitê inchado. Na segunda, nós a pintamos de borboleta, demos a ela manifesto, pacto militar e declaração de guerra. Agora, diante do desembarque na Libéria, percebo que não havia uma linha reta ligando aquele faxineiro àquela praia. O que atravessou as três edições foi o mesmo hábito: toda vez que alguma coisa pequena zumbia perto da repartição, nós jurávamos ouvir o motor de um bombardeiro. Mudavam o país, o inimigo e a janela. A nossa imaginação burocrática permanecia a mesma.

Comecei este relatório convencido de que não tinha mais nada a dizer. Achei que vocês assistiriam à falência de um cronista se repetindo até perder a graça, um burocrata empacado na própria Seção I. O papel em branco parecia uma perícia impossível. Só que, enquanto eu tentava escrever sobre eleições, impérios e guerras, vocês continuavam do outro lado da tela. Lendo. Comentando. Rindo das partes certas e, com uma generosidade perigosa, também de algumas erradas.

Foi isso que manteve a fita rodando. Não a necessidade de explicar a Guiné-Bissau, o ECO-MODE, as sete versões do Timor-Leste ou qualquer outra peça desta máquina. Foram os pequenos gestos espalhados pelo caminho: o guia enviado para um novato que não merecia tamanha paciência, o editor de texto indicado sem cerimônia, a resposta de uma fonte que podia simplesmente ter ignorado, a piada devolvida no chat, o comentário de quem chegou ao fim de uma tese sobre absolutamente nada. A geopolítica foi o material do caso. Vocês foram o motivo de continuar investigando.

Lembrei do velho Brás Cubas lá na introdução, orgulhoso no próprio túmulo por não ter deixado a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Por muito tempo achei que ele estivesse certo, que o mundo fosse apenas um acúmulo de cobrança, cansaço e burocracia do qual a gente devia poupar os outros. Mas talvez o problema nunca tenha sido transmitir a miséria. Talvez fosse transmiti-la intacta, sem transformar nada, como quem entrega ao próximo a mesma conta vencida e ainda cobra juros.

Aqui fizemos outra coisa. Pegamos a podridão do cotidiano, o cansaço do trabalho real, as crises institucionais de mentira, as derrotas, os erros e as paranoias diplomáticas e passamos tudo de mão em mão até perderem um pouco do peso. Alguém acrescentou uma piada. Outro respondeu com uma figurinha. Um terceiro ofereceu café. Quando a miséria finalmente voltou ao ponto de partida, já não era exatamente miséria. Era uma história compartilhada. Era abraço de botequim. Era abrigo improvisado contra uma vida real que não costuma oferecer intervalo obrigatório.

Não vou insultar a inteligência de vocês dizendo que um jogo de navegador resolveu alguma coisa. Pela manhã, as contas continuariam vencendo, o trabalho continuaria cobrando e a minha febre provavelmente exigiria decisões médicas um pouco melhores do que engolir comprimidos na calçada com refrigerante. Nenhuma crônica conserta isso. Mas, durante algumas horas de uma sexta-feira, conseguimos sentar juntos no meio do zero absoluto e produzir calor suficiente para atravessar a noite. Às vezes, meus caros, isso já é muito mais do que parece.

A primeira claridade da manhã começou a entrar pelas janelas do comitê. Era uma luz cinzenta, sem qualquer vocação para metáfora, que revelava a poeira suspensa sobre as mesas e o estado lamentável da minha gravata. Uma mosca de verdade pousou do lado de fora do vidro. Fiquei esperando que ela batesse as asas, derrubasse um governo ou assinasse um pacto militar. Ela apenas caminhou alguns centímetros, esfregou as patas dianteiras e permaneceu ali, completamente indiferente à responsabilidade simbólica que eu tentava colocar sobre suas costas.

Levantei-me, destranquei a janela e empurrei o caixilho. A mosca demorou alguns segundos para perceber que o vidro já não estava no caminho. Depois levantou voo e desapareceu na manhã sem provocar furacão algum. Pela primeira vez em três edições, deixei que uma mosca fosse apenas uma mosca.

Fechamos aqui a nossa Trilogia da Mosca. Ela começou com o faxineiro de um comitê, cresceu até virar o fantasma de uma guerra mundial e termina sem revelação grandiosa, apenas com uma janela aberta. O caso continua sem solução, como todos os casos que valem a pena. O investigador, porém, já não está parado diante do mesmo vidro.

Fechei o fichário devagar e amarrei o cordão de couro em volta da capa. No fundo do bolso encontrei algumas moedas, provavelmente insuficientes para pagar o aluguel e perfeitamente adequadas para uma decisão financeira irresponsável. Guardei-as na palma da mão. Do outro lado do salão, alguém voltou a rir. Dessa vez eu ri junto.

Obrigado por me ouvirem falar sobre entropia, geladeiras duplex, a França e o velho Machado. Obrigado a cada um de vocês que acompanhou esta jornada de três edições, inclusive aos que chegaram até aqui por acidente e agora precisam reconsiderar as escolhas que fizeram na vida. Vocês não resolveram o caso. Fizeram algo melhor: deram ao detetive um motivo para continuar voltando à cena do crime.

Agora vão lá, brindem a alguma coisa, fiquem perto de quem vocês amam e deixem que este correspondente pague a última rodada.



Fichário do Ódio e Fracasso – Edição #3: A Janela Aberta | War Era