Fichário do Ódio e Fracasso – Edição #1: O Milagre dos Dois Botões

Harry_DuBois18 de julho de 2026entertainment



Este não é um manifesto político, um relatório militar estratégico para a aliança ou um guia de eficiência econômica. Se você veio parar aqui, você é um pobre coitado desavisado. Isto é apenas o registro analógico, tardio e ligeiramente mal-humorado do primeiro mês de um cidadão comum tentando decifrar o hospício burocrático que chamam de War Era.

I. O Despertar

Tudo começou no Reddit. Eu estava rolando o feed, procurando absolutamente nada que justificasse a minha existência, quando li um aviso alarmante: "O Brasil está sendo atacado". Meu cérebro, movido por um patriotismo barato e uma total falta de planos para a tarde, decidiu que eu era o herói que a pátria não havia pedido. Caí de paraquedas neste território hostil chamado War Era.

Minhas primeiras 48 horas foram um monumento à incompetência humana. Eu não sabia o que estava fazendo. Eu clicava em coisas. Clicava em botões vermelhos, em botões verdes, se fosse um sistema de controle de tráfego aéreo, teríamos uma das priores catástrofes já registradas. Nem sei como o War Era ainda está de pé com a minha presença nele.

E as minhas batalhas… Se eu causava 500 de dano por dia em uma batalha, era muito. Mesmo eu tendo que rolar entre aqueles danos colossais dos primeiros colocados, eu tinha que rolar e rolar, e rolar. Até chegar na 473ª posição da batalha e ver o meu nome. Era um alívio ver que eu não era, pelo menos, o último colocado.

Três dias depois, alguém com muita paciência me enviou o "Guia dos Novatos". Li o documento com o mesmo sentimento de quem lê a bula de um remédio após ter engolido a caixa inteira: e percebi, que eu fiz rigorosamente tudo o que o guia dizia para não fazer. Mas sobrevivi. O dano já estava feito.


II. A Economia de Miséria e o Vazio Existencial

A rotina neste lugar possui a estimulante energia de uma repartição pública em uma sexta-feira de chuva. O "trabalho" consiste em apertar dois botões. Dois. Você entra, clica, e espera os valores subirem como bolhas em uma arminha de brinquedo de uma criança, e pronto: você cumpriu sua função socioeconômica no mundo digital. É uma monotonia tão avassaladora que me faz questionar os limites da sanidade moderna. Por que eu continuo entrando aqui? Ninguém sabe. O War Era é aquele tipo de jogo que você joga apenas porque o ícone está ali, é como uma ex... você clica na esperança de sentir alguma coisa, mas no fim, percebe que era apenas um interfone quebrado. A diferença é que o interfone quebrado tinha mais linhas de diálogo e não me cobrava duas moedas por um pão velho.

Atualmente, opero uma fábrica de munição leve. Sou um magnata do chumbo que passa o dia estocando caixas e mais caixas de projéteis, e o melhor, eu não vou vender nada. Acho que vou mudar de ramo, talvez me mudar para o campo e cuidar de algumas vacas ou peixes. Nada mais de balas. Até que seria uma ótima ideia para mim, estou vivendo à base de uma dieta estrita de exatamente dois pães por dia. Nem um centim a mais. Se eu comer um terceiro, meu personagem provavelmente tem um colapso existencial.

Sigo a filosofia do invisível: eu não converso, não mando bom dia no chat, não debato estética partidária. Eu sou apenas um fantasma na máquina. Eu observo. Quase tudo o que acontece passa pelo meu crivo silencioso. E sim, todos estão sendo fortemente julgador por mim. Minhas únicas interações sociais até hoje foram ajudar um sujeito com dilemas morais em outro universo (uma longa história envolvendo um gordo de sindicato) e a recente conversa de crise. O que nos leva ao grande evento do mês.


III. O Grande Expurgo Passivo-Agressivo

Alguns dias atrás, as frestas da nossa burocracia partidária foram violadas por uma criatura singular. Um sabotador solitário, desprovido de qualquer propósito cósmico ou amor-próprio, rastejou para dentro do nosso comitê. Ele não precisou hackear o Pentágono ou subornar a polícia portuária. O sujeito simplesmente colocou o próprio nome na lista de candidatos, votou em si mesmo e, pasmem, ganhou o cargo.

Em qualquer outra organização saudável, isso geraria pânico, choro e acusações de traição nacional. Mas quando o meu cérebro de ressaca processou a informação, a reação foi um sonoro e apático: “Sério? Só isso?”.

O golpe teve o peso dramático de uma mosca batendo no vidro de uma janela. O nosso partido estava inflado, um verdadeiro cemitério de almas digitais que não logavam desde que o mundo era jovem. Aquele intruso incompetente basicamente fez o trabalho de um mutirão de limpeza de graça. Ele varreu os fantasmas, espanou a poeira das cadeiras vazias e reduziu a nossa folha de membros ao núcleo que realmente respira. Os únicos que ele não conseguiu tocar foram os outros conselheiros. Aparentemente, as regras metafísicas deste hospício impedem que um burocrata expulse outro de igual valor de crachá.

Claro, houve um breve momento de constrangimento diplomático. Fui obrigado a sentar com as lideranças e debater segurança institucional como se fôssemos uma junta militar de salvação nacional. Chegamos à conclusão de que precisávamos criar uma vanguarda revolucionária permanente (uma "panelinha do bem", se preferir), porque se você der bobeira, o sujeito finge que vai cozinhar para você só para puxar o seu tapete pelas costas enquanto você dorme.

No fim, a burocracia venceu. Nós voltamos, trocamos as fechaduras digitais, e agora o comitê exige mais ritos de passagem e anúncios públicos de candidatura do que uma embaixada real. Se alguém quiser subir na hierarquia sem passar pela sabatina, o martelo cai. A faxina foi um sucesso, mesmo que o faxineiro achasse que estava fazendo uma revolução.