Conflitos políticos nem sempre persistem porque as partes possuem interesses incompatíveis. Às vezes, persistem porque uma parte passa a interpretar praticamente qualquer comportamento da outra como confirmação de uma hostilidade que já havia sido presumida.
Esse fenômeno pode ser chamado de hostilidade autovalidante.
A lógica é simples: se o outro lado coopera, isso pode ser interpretado como uma tentativa de obter vantagem. Se discorda, demonstra hostilidade. Se permanece neutro, está escondendo suas intenções. Se propõe um acordo, pretende ganhar tempo. Se recusa o acordo, confirma que nunca desejou a paz.
Nesse modelo, praticamente nenhuma resposta consegue alterar a conclusão inicial.
Concordância não é necessariamente submissão.
A existência de vários partidos, alianças ou coligações não demonstra, por si só, que um grupo controla os demais.
Partidos podem cooperar em determinadas questões e discordar em outras. Podem formar alianças sem abandonar sua identidade política. Da mesma forma, pessoas que ingressam posteriormente em uma disputa podem chegar independentemente às mesmas posições defendidas por participantes mais antigos.
Transformar toda convergência política em evidência de captura impede reconhecer a própria autonomia dos demais participantes.
A origem de uma pessoa não determina automaticamente sua posição política.
Um cidadão pode viver e atuar em outro Estado sem representar os interesses de seu país de origem. Da mesma forma, a presença de pessoas de determinada nacionalidade em um governo estrangeiro não demonstra, por si só, que esse governo esteja subordinado a interesses externos.
O que importa é o comportamento político concreto.
Pessoas com a mesma nacionalidade podem defender interesses completamente diferentes. Nacionalidade e lealdade política são categorias distintas.
História explica desconfianças, mas não transforma qualquer comportamento futuro em prova.
Conflitos anteriores naturalmente importam. O problema surge quando eles se transformam em justificativas permanentes.
Um acontecimento antigo pode explicar por que existe desconfiança hoje. Porém, se qualquer comportamento atual continuar sendo interpretado através de acontecimentos passados, mesmo quando as circunstâncias já mudaram, o passado deixa de ser contexto e passa a funcionar como uma sentença permanente.
O problema se agrava quando acontecimentos de outros períodos ou conflitos diferentes são continuamente incorporados ao argumento.
Sempre haverá algum precedente que poderá ser apresentado como uma nova razão para desconfiar.
Se qualquer comportamento pode justificar sua ruptura, nenhum acordo oferece previsibilidade.
Isso aparece de maneira particularmente clara nas tentativas de estabelecer NAPs (acordos de não agressão).
Um acordo desse tipo não exige amizade ou confiança absoluta. Sua finalidade básica é estabelecer uma regra previsível de comportamento e reduzir a possibilidade de conflito.
Mas existem dois extremos que podem destruir essa função.
De um lado, um acordo perde credibilidade quando as partes continuam praticando ações materiais incompatíveis com a não agressão.
De outro, se qualquer declaração, provocação verbal, acontecimento antigo ou divergência política puder automaticamente ser tratado como violação, nenhum compromisso terá estabilidade suficiente para funcionar.
Surge então uma pergunta: se qualquer coisa pode ser considerada uma violação, o que exatamente o acordo protege?
Um acordo pode ser racional mesmo quando a confiança é limitada.
Uma negociação não precisa partir da premissa de que todos os envolvidos são confiáveis.
É possível buscar um acordo simplesmente porque ele reduz riscos, custos ou o número de conflitos simultâneos.
Mesmo quando existe a possibilidade de descumprimento, reduzir uma frente de conflito pode ser uma decisão racional. Um acordo limitado não precisa representar amizade, alinhamento político ou confiança mútua. Pode representar apenas uma decisão prática de não transformar determinada divergência em guerra.
Quando toda tentativa de acomodação é rejeitada porque necessariamente esconderia uma intenção hostil, a negociação deixa de ser um instrumento de redução de conflitos.
Ela se torna apenas mais uma oportunidade para produzir novas razões para o conflito.
Se toda resposta confirma a suspeita, a suspeita deixou de ser realmente testável.
A hostilidade autovalidante ocorre quando a suspeita deixa de ser uma hipótese baseada em evidências e passa a determinar como toda ação será interpretada. Cooperação vira manipulação, neutralidade vira dissimulação e oposição vira confirmação.
Para evitar esse ciclo, é preciso avaliar comportamentos concretos, estabelecer critérios claros e impedir que o passado determine antecipadamente o significado de toda ação futura.